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Um Dia, Talvez

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  Um dia serei apenas passado, um eco preso no lugar secreto onde o tempo se recolhe. Uma figura em algum retrato antigo, esquecido num canto qualquer, coberto de pó. Talvez, ainda assim, serei lembrado - não com intensidade, mas com a doçura de um sorriso leve, de um suspiro solto no ar. Recordarás, talvez, um instante singelo, naquela tarde de outono em que o céu se tingia de amarelo e nossos risos se entrelaçavam sem medo do amanhã. Havia nos teus olhos uma promessa, e nos meus, a certeza de que o amor nos pertencia. Mas nesse dia futuro, quando fores assaltada pela lembrança, já estarei ausente, distante dos sonhos urgentes que sonhamos com tanto ardor. Estarei diluído no tempo, substituído em silêncio, esquecido como um estranho no coração que um dia fui chamado de lar. Ainda assim, de ti não me despeço por completo. Carrego cada detalhe teu: teu riso guardado em mim como ondas eternas no mar, tuas palavras gravadas nas dobras da memória como tatuagens indeléveis, teu ...

Vontade de Deus

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  Não aposte cegamente na religião. Ao longo da história, sob o pretexto da “Vontade de Deus”, inúmeros fanatismos justificaram atos de intolerância, violência e exclusão. Cruzadas foram travadas em nome da fé, guerras religiosas ceifaram milhões de vidas, hereges foram queimados em praças públicas e, ainda hoje, vemos atentados, perseguições e preconceitos sendo legitimados pelo uso deturpado do sagrado. A verdadeira santidade, no entanto, não reside em dogmas inflexíveis ou em rituais repetidos sem consciência, mas na ação justa, na coragem de proteger os indefesos e na prática constante da bondade. O que chamamos de “desejo divino” não está cristalizado apenas em textos antigos ou na interpretação de líderes religiosos, mas também naquilo que ressoa em nossa consciência e pulsa em nosso coração. São as escolhas cotidianas - as pequenas atitudes de compaixão, os momentos em que resistimos à injustiça, os gestos de solidariedade diante da dor alheia - que revelam a essênci...

Eu Vejo Isso

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A escravidão nunca foi abolida; ela apenas se metamorfoseou, esticando suas correntes para abraçar todas as cores, todas as classes, todas as almas. Não são mais grilhões de ferro, mas amarras invisíveis: dívidas, prazos, telas brilhantes e promessas de uma vida que nunca chega. O que fere, o que corta fundo, é a erosão lenta e implacável da humanidade daqueles que, exaustos, se arrastam para empregos que odeiam. Eles não querem estar lá, mas o medo - esse capataz cruel - sussurra que o desconhecido é pior. E assim, as pessoas se esvaziam. Tornam-se cascas: corpos movidos pelo pavor, mentes moldadas pela obediência cega. A luz some dos olhos. A voz, outrora vibrante, vira um murmúrio áspero, desbotado. O corpo se curva, o cabelo perde o brilho, as unhas roídas denunciam a ansiedade, os sapatos gastos arrastam o peso de uma vida que não é vivida. Tudo se deteriora, tudo se rende. Quando jovem, eu me recusava a acreditar que as pessoas se deixariam afundar nessa condição. Como um homem v...

Complexidade

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  A vida é um mistério quase indizível, uma tapeçaria complexa de momentos que se entrelaçam em paradoxos e contradições. É um fenômeno que escapa às explicações simples, pois carrega em si a dualidade que molda nossa existência. Para compreender a felicidade, é necessário conhecer a tristeza; é no contraste entre a dor e a alegria que encontramos significado. O barulho ensina a valorizar o silêncio, assim como a ausência nos faz reconhecer a preciosidade da presença. Cada experiência, por mais trivial ou intensa que seja, é um fio que compõe o tecido da nossa história. A vida não é feita apenas de grandes acontecimentos, como o nascimento de um filho, a realização de um sonho ou uma perda irreparável. Ela também pulsa nos instantes aparentemente insignificantes: o aroma do café pela manhã, o som da chuva batendo contra a janela, o pôr do sol que insiste em ser belo mesmo após um dia difícil, ou ainda um olhar compartilhado com um estranho que, por um breve segundo, parece co...

Árvores: Poemas da Terra

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  “Árvores são poemas que a Terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar nosso vazio.” Khalil Gibran As palavras de Khalil Gibran ecoam como um lamento poético, mas também como um convite à reflexão sobre a relação entre a humanidade e as árvores. Essas gigantes silenciosas, com raízes que abraçam o solo e copas que dançam com o vento, são mais do que meros elementos da natureza: são testemunhas do tempo, guardiãs da vida e narradoras de histórias que transcendem gerações. Cada árvore, com sua textura única e sua sombra acolhedora, carrega em si a memória de chuvas, ventos e do pulsar da Terra. Contudo, a humanidade, em sua busca incessante por progresso, frequentemente as reduz a recursos, esquecendo que cada tronco cortado é um verso arrancado do poema vivo do planeta. As árvores desempenham papéis cruciais nos ecossistemas. Elas são pulmões da Terra, absorvendo dióxido de carbono e liberando oxigênio, um processo vital que sust...

Pessimista sobre o pós vida

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  Desde os primórdios da humanidade, a morte tem sido um tema central de reflexão, temor e ritualização. A maneira como diferentes culturas ao longo da história interpretou e representara a morte oferece pistas valiosas sobre suas estruturas sociais, crenças metafísicas, valores éticos e modos de vida. Esse fenômeno universal, inevitável e misterioso, moldou práticas, narrativas e sistemas de crenças que variam amplamente entre povos e épocas, mas que compartilham a busca comum por compreender o fim da vida e seu significado. Nas sociedades antigas, como no Egito Antigo, a morte era vista como uma passagem para uma existência eterna. Os rituais funerários, como a mumificação, e a construção de monumentais pirâmides refletiam a crença na continuidade da alma e na necessidade de preparar o corpo e o espírito para a vida após a morte. Textos como o Livro dos Mortos orientavam os falecidos no além, enquanto oferendas e túmulos suntuosos demonstravam a importância de assegurar uma...

Morgan Freeman e o Segurança

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  Em uma manhã ensolarada no Mississippi, Morgan Freeman, já um ator consagrado, conhecido por sua voz marcante e papéis memoráveis em filmes como Um Sonho de Liberdade e Conduzindo Miss Daisy, decidiu fazer compras em uma loja de departamentos local. Apesar de sua fama global, Freeman, com sua característica humildade, entrou no estabelecimento sem alarde, vestindo roupas simples que não denunciavam sua celebridade. Logo ao cruzar a entrada, um segurança da loja, sem reconhecê-lo, fixou seus olhos no ator. Desconfiado, talvez por estereótipos raciais enraizados ou pela aparência despojada de Freeman, o segurança passou a segui-lo discretamente pelos corredores. A cada prateleira que Freeman parava para observar, o segurança se posicionava a poucos metros, mantendo-o sob vigilância constante. O ator, com sua percepção aguçada, notou o comportamento. Os olhares furtivos, os passos calculados e a tensão no ar não passaram despercebidos. No entanto, Freeman, com a serenidade q...

Otto Frank o Único Sobrevivente da Família

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  Após a libertação do campo de concentração de Auschwitz em janeiro de 1945, Otto Frank, o único sobrevivente da família Frank, empreende uma dolorosa jornada de volta a Amsterdã. Durante o trajeto, marcado por incertezas e devastação deixada pela Segunda Guerra Mundial, ele recebe a devastadora notícia da morte de sua esposa, Edith Frank, que sucumbiu às condições desumanas do campo. Chegando a Amsterdã, exausto e carregando o peso da perda, Otto busca refúgio na companhia de Miep e Jan Gies, amigos leais que arriscaram suas vidas para ajudar a família Frank durante o período em que permaneceram escondidos no Anexo Secreto. Com um fio de esperança, Otto ainda acredita que suas filhas, Anne e Margot, possam estar vivas. Ele se agarra à possibilidade de reencontrá-las, mas logo é confrontado com a trágica realidade: ambas morreram no campo de concentração de Bergen-Belsen, vítimas da fome, doença e do horror do Holocausto. A notícia é um golpe final em seu coração já desped...

"A virtude está no meio."

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  Ou, mais precisamente: "A virtude é uma disposição habitual e voluntária, adquirida por meio da prática, que consiste em encontrar o ponto médio entre dois extremos indesejáveis, um por excesso e outro por deficiência." - Aristóteles Essa máxima, retirada da Ética a Nicômaco, sintetiza um dos fundamentos mais duradouros da filosofia moral de Aristóteles: a doutrina do justo meio. Para o filósofo grego, a virtude não é um dom natural nem um privilégio de poucos, mas uma conquista prática e contínua. Surge da repetição deliberada de boas ações, que, pouco a pouco, moldam o caráter e conduzem à excelência moral. O “meio” ao qual Aristóteles se refere não deve ser entendido como uma simples média matemática ou como neutralidade, mas como um equilíbrio vivo e dinâmico, que considera as circunstâncias, o contexto e a singularidade de cada pessoa. Assim, a coragem se situa entre a temeridade (excesso) e a covardia (deficiência), enquanto a generosidade ocupa o espaço interm...

A violência atual no Brasil

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  "Antes ela executava criminosos, hoje os criminosos executam inocentes no meio da rua na presença de populares". A violência atual no Brasil apresenta um contraste brutal com o passado da pena de morte, como sugerido na frase: "Antes ela executava criminosos, hoje os criminosos executam inocentes no meio da rua na presença de populares". Se em 1876, com a última execução civil em Pilar, Alagoas, o Estado ainda exercia o monopólio da força para punir crimes com a forca, hoje a realidade é marcada por uma inversão perversa: a violência escapou das mãos das instituições e se espalhou pelas ruas, frequentemente perpetrada por criminosos que agem com uma ousadia que desafia a lei e a ordem pública. Esse cenário reflete não apenas a ausência da pena capital, abolida para crimes civis desde o início da República, mas também as dificuldades crônicas do país em lidar com a criminalidade, a desigualdade e a fragilidade do sistema de justiça. Em 2025, o Brasil contin...