Quando os Olhos Não Mentem


 

Você já olhou nos olhos de alguém e, por um segundo eterno, sentiu que enxergava tudo? Como se ali, naquele instante suspenso, estivessem condensadas histórias que nunca vivemos juntos, promessas que ainda não foram ditas em voz alta e um reconhecimento antigo, mais antigo que as palavras, mais antigo que está vida.

Há encontros que não pedem explicação. Eles simplesmente acontecem.
Um cruzar de olhares no meio da multidão barulhenta, um silêncio que cai pesado entre duas pessoas sentadas lado a lado no metrô, um sorriso tímido trocado na fila do café em uma manhã qualquer. E, de repente, o mundo inteiro se cala.

Naquele olhar cabe um pedaço da sua alma, um fragmento que, sem você perceber, você passou a vida procurando, como quem procura a nota que falta em uma melodia antiga.

Quando esse momento chegar, vá inteiro. Vá sem reservas, sem as armaduras que você construiu com os cacos das decepções passadas, sem o medo que sussurra “e se der errado de novo?”.

Porque certos encontros não aceitam versões pela metade. Eles exigem presença absoluta, entrega sem rede de segurança e uma coragem que muitas vezes nem sabíamos que ainda tínhamos.

Recusar-se a ir por completo pode significar carregar, pelo resto da vida, a sensação incômoda de quase-ter-vivido-algo-extraordinário. É tentar reconstruir, em outros rostos, em outros olhares, a exata temperatura, o exato tremor, a exata eletricidade que só existiu naquele único instante.

A vida não avisa quando vai nos entregar o que realmente importa.
Ela não manda convite, não toca trombeta. Apenas coloca diante de nós, num vagão lotado, numa livraria silenciosa, numa viagem sem destino certo  e, fica olhando, quieta, para ver o que vamos fazer.

Muitas vezes o destino se disfarça de simplicidade: um “oi” despretensioso que faz o coração tropeçar, um silêncio compartilhado que fala mais que mil conversas, um reconhecimento súbito que dispensa qualquer apresentação.

E é exatamente aí que somos postos à prova: fugir para a segurança conhecida ou permanecer na vulnerabilidade desconhecida? Proteger o que resta do coração ou abri-lo inteiro, mesmo sabendo que pode sangrar?

Esteja pronto para o que a vida te trouxer, mesmo - e principalmente - quando isso assusta. Nem todo encontro veio para ficar até o fim dos dias.
Mas alguns vieram para incendiar, para reescrever, para lembrar quem você realmente é quando ninguém está olhando.

Depois de um encontro desses, a gente nunca mais volta a ser exatamente o mesmo. Algumas portas se fecham e outras se escancaram para sempre. O risco de sentir tão fundo é real, palpável, às vezes até doloroso.

Mas o risco maior, infinitamente maior, é atravessar a vida inteira protegido, e nunca mais sentir algo assim. Então, quando os olhos certos te encontrarem - e eles vão encontrar -, não desvie o olhar. Respire fundo. E vá. Inteiro.

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