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Mostrando postagens de dezembro 21, 2025

A Morte

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  Sei que um dia a morte virá, como um vento frio que apaga a chama de uma vela já cansada de arder. Não chega como surpresa, sua presença sempre caminhou ao meu lado, mas ainda assim carrega um peso que aperta o peito, um silêncio espesso que fala de tudo o que deixarei para trás. Ela não anuncia hora nem pede licença; apenas espera, paciente, enquanto seguimos fingindo que o tempo é infinito. Enquanto esse momento não chega, esforço-me para preservar dentro de mim um coração de criança, aquele que ainda se permite encantar com o brilho breve de um raio de sol atravessando a janela, com o som distante de uma canção esquecida ou com o voo despretensioso de um pássaro qualquer. Esse coração ingênuo é o que me lembra que a vida, apesar de tudo, ainda pulsa em detalhes quase invisíveis. Mas é com a coragem exausta de um adulto que sigo adiante. Uma coragem que não nasce da esperança, mas da necessidade. Enfrento o mundo com suas promessas quebradas, seus afetos frágeis e suas ci...

O Futuro é a Velhice

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  A vida passa depressa, mais depressa do que estamos dispostos a admitir quando ainda somos jovens. Por isso, é preciso preparo para o que inevitavelmente nos aguarda ao final do caminho. Acreditar que permaneceremos os mesmos ao longo dos anos é uma ilusão confortável, porém perigosa. O tempo não preserva: transforma. A juventude, com sua força abundante e energia quase insolente, não é um estado permanente. O corpo cede, a mente amadurece, e os limites, antes ignorados, tornam-se evidentes. Reconhecer essa transição não é sinal de fraqueza, mas de lucidez. Ainda assim, muitos resistem. Há quem, aos sessenta ou setenta anos, continue a se enxergar com os olhos dos vinte, insistindo em desafiar o próprio corpo, como se negar o tempo fosse uma forma de vencê-lo. Essa recusa em aceitar a própria condição cobra um preço alto. Quantas vidas já se perderam na tentativa de repetir feitos que pertencem a outra fase da existência? Montanhas escaladas por vaidade, velocidades man...

A Fome

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  No mundo contemporâneo, marcado por avanços extraordinários nas áreas da tecnologia, da agricultura e da logística, é moralmente inaceitável que milhões de pessoas ainda passem fome ou morram em decorrência da desnutrição. A fome não pode ser atribuída à falta de recursos ou de capacidade produtiva: ela é, sobretudo, uma falha ética e política. Mais do que um problema técnico, trata-se de um retrato cruel da desigualdade estrutural que organiza o sistema econômico global. Enquanto uma parcela ínfima da população acumula riquezas exorbitantes, outra luta diariamente pelo direito mais básico de todos: comer. Essa disparidade não é fruto do acaso. Ela é sustentada por interesses econômicos, políticos e sociais que, direta ou indiretamente, lucram com a miséria. A concentração de terras, o controle das cadeias alimentares por grandes corporações e a especulação sobre alimentos transformam a comida - um direito humano fundamental - em mercadoria submetida às leis do mercado. Nesse...

O Luto de Natalia

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  Durante sete meses, Natalia, uma chimpanzé residente no Bioparc Valencia, na Espanha, protagonizou um dos episódios mais comoventes já observados em ambientes de conservação animal. Após a morte de seu filhote, ela passou a carregar o pequeno corpo sem vida por todo o ambiente, embalando-o, protegendo-o e cuidando dele com uma delicadeza maternal que desafiava qualquer interpretação puramente instintiva. Para Natalia, aquele corpo não era apenas um corpo inerte. Era seu filho. Mesmo com o passar do tempo e com o avançar natural da decomposição, ela manteve o vínculo, segurando-o junto ao peito, afastando-o de outros indivíduos e realizando gestos que, para observadores humanos, evocavam claramente o cuidado e o apego. Não havia pressa em aceitar a ruptura definitiva. Havia, antes, uma insistência silenciosa em manter viva a relação, ainda que a vida já não estivesse ali. A equipe do Bioparc Valencia, consciente da complexidade emocional dos chimpanzés e guiada por princíp...