No Antigo Império
No antigo Império Aquemênida -
o vasto e poderoso Império Persa, fundado por Ciro, o Grande, por volta de 550
a.C. - havia um costume singular relacionado ao processo de tomada de decisões
políticas e administrativas.
Tal prática foi registrada
pelo historiador grego Heródoto, em sua obra Histórias, e desde então
desperta fascínio e debate entre estudiosos. Segundo Heródoto, os persas tinham
o hábito de deliberar sobre assuntos de grande importância enquanto estavam
embriagados pelo vinho.
Diferentemente dos gregos, que
costumavam diluí-lo em água, os persas o consumiam puro e em abundância,
especialmente durante banquetes promovidos pela elite. Nessas ocasiões,
questões sérias - alianças, leis, estratégias e decisões de Estado - eram
discutidas em meio à euforia e ao despojamento provocados pela bebida.
No dia seguinte, já em estado
de sobriedade, o anfitrião da reunião reapresentava a proposta ao grupo. Se a
ideia ainda parecesse válida e sensata, era então adotada; se perdesse sua
força ou coerência, era prontamente rejeitada.
Curiosamente, o processo
também funcionava de modo inverso: decisões inicialmente tomadas de forma
sóbria eram posteriormente reconsideradas sob a influência do vinho.
Essa prática bidirecional
revela uma concepção refinada sobre a natureza humana e o julgamento. Os persas
pareciam acreditar que diferentes estados mentais revelavam diferentes
verdades.
A embriaguez, nesse contexto,
permitiria que emoções sinceras, impulsos profundos e ideias ousadas viessem à
tona - uma noção que ecoa o antigo aforismo latino in vino veritas, “no
vinho está a verdade”. Já a sobriedade oferecia o contrapeso da razão, da
prudência e da clareza lógica.
Somente as decisões que
resistissem a ambos os filtros - o da paixão desinibida e o da razão calculada -
eram consideradas legítimas, sólidas e dignas de implementação. Essa combinação
de razão fria e emoção revelada demonstra um entendimento surpreendentemente
moderno sobre o equilíbrio necessário à boa governança.
Não é por acaso que essa
anedota tenha inspirado reflexões contemporâneas sobre criatividade e
discernimento, frequentemente resumidas na máxima: “escreva embriagado, edite
sóbrio”. Contudo, é importante lembrar que Heródoto é a principal - e
praticamente única - fonte antiga a relatar esse costume de forma tão
explícita.
Escrevendo no século V a.C.,
como um grego observando povos considerados estrangeiros e, muitas vezes,
inimigos - especialmente os persas, rivais diretos nas Guerras Médicas -,
Heródoto nem sempre é tido como plenamente confiável.
Seus relatos misturam
observação, tradição oral e, por vezes, certo exotismo narrativo. Por isso,
alguns estudiosos acreditam que ele possa ter exagerado ou reinterpretado uma
prática real.
É possível que, na verdade, os
persas realizassem discussões políticas durante banquetes regados a vinho, algo
comum entre as elites do mundo antigo, onde o vinho funcionava como um
lubrificante social, facilitando o diálogo e a franqueza. No entanto, a ideia
de uma obrigatoriedade sistemática de deliberar duas vezes - uma bêbada e outra
sóbria - pode ter sido uma estilização literária.
Além disso, embora o vinho
ocupasse um papel central na cultura Aquemênida - símbolo de status, elemento
ritual e presença constante em festas cortesãs -, textos ligados ao
zoroastrismo, religião predominante do império, valorizavam a moderação e o
autocontrole, o que contrasta com a imagem de decisões tomadas em estado de
embriaguez excessiva.
Ainda assim, verdadeira ou não
em sua literalidade, essa narrativa ilumina aspectos fundamentais da
civilização persa. O Império Aquemênida estendia-se do Egito à Índia,
governando povos diversos por meio de uma administração eficiente, tolerância
religiosa, respeito às tradições locais e inovações notáveis, como o sistema
postal imperial e uma complexa rede de estradas.
Nesse sentido, o relato de
Heródoto - mais do que um simples costume curioso - funciona como metáfora de
uma sabedoria atemporal: decisões verdadeiramente boas precisam sobreviver
tanto ao escrutínio racional quanto ao confronto com nossas emoções mais
profundas.
Talvez, afinal, haja algo a aprender com os antigos persas - ainda que, nas reuniões modernas, essa experiência deva ser feita com moderação, prudência e, de preferência, apenas no plano metafórico.

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