Golias: O Corpo que Expôs a Fragilidade da Escravidão



Depois de quinze anos em Blackwood, algo mudou, não nele, mas ao redor dele. A plantação já não conseguia contê-lo apenas com correntes. O medo começava a circular com mais rapidez do que as ordens.

Os capatazes evitavam cruzar-lhe o olhar. Os visitantes, antes curiosos, passaram a baixar a voz. Golias deixará de ser atração; tornara-se presságio. O primeiro sinal de ruptura não foi um ato de violência, mas de recusa.

Numa manhã abafada, quando lhe ordenaram que se deixasse acorrentar para uma exibição, ele simplesmente ficou imóvel. Não avançou, não atacou, não gritou. Permaneceu de pé, como uma árvore que decidiu não cair.

Foram necessários seis homens para prendê-lo e, ainda assim, durante minutos longos demais, ninguém ousou ser o primeiro a tocá-lo. A plantação inteira aprendeu, naquele instante, que a obediência não era natural; era frágil.

A notícia correu. Primeiro entre os escravizados das fazendas vizinhas, depois entre os brancos. Histórias começaram a ganhar contornos míticos: diziam que ele arrancara estacas do chão; que carregara sozinho um tronco destinado a três homens; que certa vez um chicote se partira contra as suas costas como se tivesse atingido pedra.

Pouco importava o que era verdade. O que importava era que o medo mudara de lado. Blackwood tentou livrar-se dele sem admitir derrota. Venderam-no, não como trabalhador, mas como curiosidade viva.

Golias passou a ser transportado de propriedade em propriedade, exibido em feiras agrícolas, tribunais, tavernas improvisadas. Era apresentado como “o maior negro da Virgínia”, uma mistura de espetáculo e ameaça contida.

Os senhores acreditavam que, espalhando-o, diluiriam o perigo. Fizeram exatamente o contrário. Cada lugar por onde passava acrescentava uma camada ao mito. Escravizados ouviam falar dele como quem escuta um salmo proibido: um homem que não se curvava por completo, um corpo que resistia à forma esperada da servidão.

Não era um libertador, não liderava fugas, não pregava revoltas. E ainda assim, só por existir, alargava o imaginável. Se um homem podia ser tão grande, tão indomável, talvez o mundo não fosse tão estreito quanto diziam.

Foi então que o sistema percebeu o erro. Golias tornara-se incontrolável não por agir, mas por simbolizar. Os jornais começaram a mencioná-lo com cautela. Médicos publicaram artigos tentando explicar sua estatura como deformidade, doença, aberração, qualquer coisa que o afastasse da ideia de força consciente.

Precisavam transformá-lo novamente em exceção, em erro da natureza, não em prova de humanidade resistente. Mas o corpo de Golias continuava ali, inegável. E com o tempo, veio o conflito inevitável.

Em Richmond, durante uma audiência em que deveria ser apresentado como evidência de propriedade, um “bem” disputado entre senhores, ele se recusou a entrar na sala. O silêncio que se seguiu foi mais perturbador do que qualquer grito.

Pela primeira vez, um tribunal branco teve de reconhecer que não havia força suficiente na lei para obrigá-lo a atravessar aquela porta. Não há registro claro do seu fim.

Alguns dizem que foi finalmente abatido, longe dos olhos públicos, porque já não podia ser exibido sem risco. Outros afirmam que morreu de exaustão, seu corpo cobrado até o último fôlego por um sistema vingativo.

Há ainda quem sustente que desapareceu, vendido para longe, perdido nas margens da história oficial. O que sabemos é isto: o mito sobreviveu ao homem. Golias passou a existir menos como corpo e mais como ideia.

Um nome murmurando que certos limites são artificiais. Que a escravidão, apesar de toda a sua violência, nunca foi absoluta. E que, às vezes, o maior ato de resistência não é destruir o sistema, mas permanecer inteiro o suficiente para expor sua mentira.

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