A Magia da Música
Não há nada mais marcante do
que uma música capaz de embalar um momento decisivo de nossas vidas, seja ele
envolto em tristeza ou transbordando de alegria.
Certas canções não apenas
acompanham os acontecimentos: elas se fundem a eles, tornam-se parte
inseparável da experiência vivida, como se o tempo passasse a obedecer ao ritmo
de seus acordes.
É como se se gravassem em
nosso inconsciente à maneira de tatuagens emocionais, profundas e resistentes
ao desgaste dos anos. Cada vez que as ouvimos, somos imediatamente
transportados para o instante em que cruzaram nosso caminho.
Revivemos, com espantosa
nitidez, sentimentos, cheiros, rostos, silêncios - e até o clima exato daqueles
dias, como se a memória se abrisse em som.
Na minha vida, Mississippi,
da banda Pussycat, é uma dessas marcas indeléveis, embora, certamente, não seja
a única. Lançada em 1975, com sua melodia envolvente e sua atmosfera carregada
de saudade e sonhos adiados, a canção acabou se entrelaçando a uma fase
turbulenta e, ao mesmo tempo, surpreendentemente esperançosa do meu coração.
Naquele período, eu carregava
o peso de um amor perdido. Uma despedida mal resolvida, daquelas que deixam
cicatrizes profundas e um vazio que parece não admitir preenchimento.
A melodia suave e nostálgica
de Mississippi ecoava a minha própria melancolia, como se traduzisse em
notas aquilo que eu não conseguia expressar em palavras. Era dor transformada
em música. Paradoxalmente, porém, essa mesma canção me oferecia consolo, um
abraço silencioso, discreto, mas persistente, em meio à solidão.
A vida, no entanto, com sua
incansável capacidade de renovação, fez o que sempre faz quando menos
esperamos: abriu uma fresta. Surgiu um novo amor, inesperado, quase tímido no
início, mas forte o suficiente para reacender em mim a esperança. E Mississippi
estava lá outra vez, acompanhando o movimento da alma. Já não apenas como eco
da dor, mas como testemunha da mudança.
A canção passou a ser trilha
sonora tanto do luto pelo que se perdeu quanto da alegria cautelosa que
começava a nascer. Essa dualidade lhe conferiu um significado ainda mais
profundo. Mississippi deixou de ser apenas um lembrete das perdas e
tornou-se símbolo de transição, a prova sensível de que, mesmo quando tudo
parece ruir, a vida insiste em seguir adiante, oferecendo novas possibilidades,
ainda que discretas.
Hoje, sempre que ouço Mississippi,
sinto como se abrisse um diário invisível. Cada acorde resgata imagens daquele
tempo: o peso das noites mal dormidas, as conversas que nunca aconteceram, os
pensamentos repetidos em silêncio.
Mas também reaparecem os
primeiros sorrisos hesitantes, os gestos ainda inseguros, os olhares que, sem
prometer nada em voz alta, anunciavam recomeços.
Essa música não marcou apenas
uma fase, ela se tornou um portal. Um elo sensível entre passado e presente,
capaz de me reconectar às nuances e contradições daquele período.
Ela me lembra, de forma quase
poética, que a vida é feita de altos e baixos, despedidas e reencontros, dores
que ferem e curas que chegam sem alarde.
E, sobretudo, lembra que as
canções que escolhemos - ou que, de algum modo misterioso, nos escolhem -
possuem o poder raro de eternizar instantes, transformando memórias pessoais em
melodias que jamais se apagam.

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