Se Eu Não Voltar - Um Caderno Encontrado no Silêncio


 

Se eu não voltar - se um dia este caderno for encontrado sobre a mesa, ao lado de uma xícara já fria, ou de um rádio desligado, como um coração que cessou de bater - quero que saibas: cada palavra aqui foi escrita como quem acende uma vela diante do próprio abismo, não para desafiá-lo, mas para reconhecer sua profundidade.

Não busquei iluminar o mundo com estas páginas. Busquei, antes de tudo, não me perder de mim mesmo. Escrevi para permanecer inteiro quando tudo ao redor parecia fragmentado.

Escrevi com as mãos trêmulas, é verdade, mas com a alma exposta, sem defesas. Cada frase foi uma tentativa de existir quando o silêncio ameaçava me engolir, de respirar quando o ar parecia rarefeito demais.

Talvez, ao abrirem este caderno, encontrem apenas isso: vestígios. Rastros de alguém que amou mais do que soube viver. De alguém que sentiu demais - e, ainda assim, não se arrependeu. Porque amar, mesmo em silêncio, mesmo sem resposta, foi o que me manteve de pé quando o chão cedia sob meus pés e a noite parecia longa demais.

Não escrevi para te prender, nem para te cobrar permanência. Nunca te escrevi esperando retorno. Escrevi porque, dentro de mim, mesmo depois da tua ausência, tu permanecias. Nunca foste personagem da minha história - foste a própria trama, o fio invisível que sustentava tudo o que fui.

Cada parágrafo que aqui repousa carrega teu nome implícito. Cada vírgula hesitou por tua lembrança. Cada pausa foi tua sombra atravessando meus pensamentos.

Mesmo quando tentei seguir adiante, era o teu eco que guiava meus passos. A ausência física jamais conseguiu apagar tua presença invisível, constante, quase sagrada.

Talvez, ao final de tudo, está escrita não seja para ti, nem para mim. Talvez seja para o espaço entre nós - esse território silencioso que o tempo nunca conseguiu preencher, mas também nunca destruiu por completo. Há vazios que não pedem preenchimento; pedem apenas reconhecimento.

Agora que estas palavras se aproximam do fim, não sinto a necessidade de uma conclusão. O amor, este que me sustenta e me sangra, não se conclui. Ele se transforma. Muda de forma. Aprende a respirar em silêncio. Esconde-se nos gestos pequenos, nos detalhes que ninguém percebe, nas entrelinhas que só o coração sabe ler.

O amor não precisa de ponto final. Ele continua mesmo depois do silêncio, mesmo depois do adeus que não foi dito. Recolhe-se como o sol no fim da tarde e, ainda assim, aquece o horizonte com sua lembrança. Há amores que não se anunciam - permanecem.

Este caderno talvez nunca seja lido. Talvez termine esquecido numa gaveta qualquer, envelhecido pelo tempo, com páginas amareladas e palavras que já não doem tanto. Mas, se por acaso encontrar olhos dispostos a percorrê-lo, que esses olhos reconheçam: houve ternura aqui. Houve verdade. Houve um homem que, mesmo partido, escolheu amar até o fim.

Se eu não voltar - se a vida me levar como o tempo leva as folhas do outono, com suavidade e inevitabilidade - peço apenas isso: que te lembres de mim ao menos uma vez, sem peso, sem dor, com doçura.

Não quero ser lembrança pesada. Quero ser memória leve. A brisa que toca o rosto numa tarde qualquer. O cheiro de café numa manhã calma. Uma canção antiga que surge por acaso no rádio e, por um instante, faz o mundo parecer menos áspero.

E se o esquecimento vier antes da lembrança, que haja, ao menos, silêncio. Porque no silêncio também mora o amor. O amor que não grita, não exige, não cobra. O amor que apenas é.

Estas palavras foram minha oferenda. Não a ti, necessariamente, mas ao tempo, à dor, à beleza de ter amado sem medida. Escrevi para não desaparecer por dentro. Escrevi para sobreviver à tua ausência. E, ironicamente, foi escrevendo sobre ti que me reencontrei.

E assim, neste último traço, encerro não a história, mas a oração. Amém ao amor. Amém à memória. Amém ao silêncio.

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