O Parágrafo 175 Alemão
O Parágrafo 175 (em alemão: § 175 StGB) foi o
artigo do Código Penal alemão que criminalizou atos sexuais entre homens de
1871 até 1994. Ele representou o principal instrumento legal de perseguição
estatal à homossexualidade masculina na Alemanha por mais de um século e,
durante o regime nazista, tornou-se uma das ferramentas mais eficazes e
devastadoras de repressão.
Origens e versão original (1871)O parágrafo
foi introduzido em 1871, logo após a unificação do Império Alemão, inspirado no
código prussiano de 1851. O texto original dizia:
“Os atos sexuais não naturais praticados
entre pessoas do sexo masculino ou entre seres humanos e animais são punidos
com prisão; pode-se também impor a perda de direitos civis.”
A interpretação judicial era estreita:
exigia-se prova de ato “semelhante à penetração”. Por isso, durante o Império
Alemão e a República de Weimar, o número de condenações era baixo, geralmente
algumas centenas por ano.
Na década de 1920, durante a relativa
tolerância da República de Weimar - com uma vibrante cena gay em Berlim -,
houve campanhas sérias pela revogação do artigo, lideradas por Magnus
Hirschfeld e seu Comitê Científico-Humanitário.
Em 1929, uma comissão do Reichstag chegou a
votar pela descriminalização, mas a ascensão dos nazistas impediu a
implementação. A revisão nazista de 1935: o endurecimento decisivo.
Em 28 de junho de 1935 (efetivo a partir de
1º de setembro), os nazistas alteraram radicalmente o parágrafo como parte da
“reforma moral” do Código Penal. O novo texto passou a ser:
“Um homem que comete atos sexuais com outro
homem ou que se deixa abusar para atos sexuais por outro homem será punido com
prisão.”
Foram removidas as palavras “não naturais”,
ampliando enormemente o alcance: qualquer gesto, olhar, toque ou mesmo intenção
que pudesse ser interpretada como excitação sexual entre homens passou a ser
crime.
Foram acrescentados os parágrafos 175a (casos
agravados: violência, relação com subordinado, com menor de 21 anos ou prostituição
- pena de até 10 anos de trabalhos forçados) e 175b (bestialidade).
A pena máxima subiu de 6 meses para 5 anos de
prisão. Heinrich Himmler criou, em 1936, o Reichszentrale zur Bekämpfung der
Homosexualität und Abtreibung (Departamento Central do Reich para o Combate à
Homossexualidade e ao Aborto), que coordenava batidas, vigilância e delações.
Resultado: as condenações explodiram - de 948
em 1934 para 5.320 em 1936 e cerca de 8.500 em 1938. Estima-se que, durante
todo o período nazista, cerca de 100.000 homens foram presos sob o §175, dos
quais aproximadamente 53.400 foram condenados.
Entre 5.000 e 15.000 foram enviados para
campos de concentração (geralmente após cumprirem pena em prisão comum),
marcados com o triângulo rosa. A taxa de mortalidade nesse grupo foi altíssima,
estima-se que apenas 40% sobreviveram.
Pós-guerra: a continuidade vergonhosa
O fim do Terceiro Reich não significou o fim
do parágrafo. Os Aliados não o revogaram imediatamente porque ele existia antes
dos nazistas.
Alemanha Oriental (RDA): Usou a versão
pré-1935 até 1957, quando praticamente parou de aplicar o artigo por
considerá-lo incompatível com o socialismo. Aboliu-o completamente em 1968.
Alemanha Ocidental (RFA): Manteve a versão
nazista de 1935 até 1969. Entre 1949 e 1969, cerca de 100.000 homens foram
processados e 59.000 condenados. Só em 1969 (com o governo social-democrata) a
relação consensual entre adultos foi descriminalizada (acima de 21 anos); em
1973 a idade de consentimento caiu para 18 anos.
A revogação total só ocorreu em 10 de março
de 1994, na Alemanha reunificada - 123 anos após sua criação e 49 anos após o
fim da guerra.
Legado
O §175 não apenas destruiu vidas durante o
nazismo: ele continuou a estigmatizar e punir homossexuais por décadas após
1945. Sobreviventes dos campos com triângulo rosa foram muitas vezes impedidos
de receber pensão de vítimas do Holocausto, porque o artigo ainda existia.
Somente em 2002 e 2017 o Parlamento alemão
aprovou anistia e indenizações (cerca de 3.000 € + 1.500 € por ano de prisão)
para condenados pelo §175. Hoje, o triângulo rosa é símbolo internacional de
memória e resistência LGBTQIA+.
O parágrafo 175 é um dos exemplos mais claros
de como uma lei “pré-nazista” pode ser instrumentalizada para o terror e,
depois, mantida por conveniência ou preconceito.

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