A Ilusão dos Aplausos Mútuos: Tolos Aplaudindo Tolos


 

“Quanto menos talento alguém possui, mais orgulho, vaidade e arrogância costuma demonstrar. Ainda assim, esses tolos invariavelmente encontram outros tolos dispostos a aplaudi-los.”

Essa observação de Erasmo de Roterdã captura uma verdade incômoda e atemporal sobre a natureza humana: a mediocridade frequentemente se camufla com soberba exagerada, como se a falta de competência real pudesse ser compensada por uma autoimagem inflada.

Quem tem pouco a oferecer em termos de habilidade, criatividade ou profundidade intelectual tende a compensar com posturas grandiosas, discursos pretensiosos e uma sensibilidade aguçada a qualquer crítica - quanto menor a substância, maior o volume da autopromoção.

Erasmo, em seu tempo, via isso com frequência entre clérigos corruptos, acadêmicos pedantes e nobres vazios que dominavam a Europa do início do século XVI.

Ele criticava duramente a hipocrisia das elites que se julgavam superiores sem méritos reais, enquanto o verdadeiro talento muitas vezes era humilde e discreto.

No Elogio da Loucura, ele ironiza justamente como o amor próprio cega as pessoas para suas próprias falhas, fazendo com que se admirem desmedidamente - e, pior, encontrem eco em plateias igualmente limitadas.

Nos dias de hoje, esse fenômeno parece ainda mais amplificado: nas redes sociais, em ambientes profissionais tóxicos ou em círculos ideológicos fechados, vemos “especialistas” autoproclamados, influenciadores sem profundidade e líderes sem visão que prosperam exatamente porque formam bolhas de aplausos mútuos.

Um posta uma opinião rasa, outro retuita com elogios exagerados, um terceiro cria um grupo para reforçar a ilusão coletiva de genialidade. A tolice, como Erasmo bem observou, raramente anda sozinha - ela cria comunidades inteiras de validação recíproca.

No fundo, a frase nos convida a uma reflexão desconfortável: será que nosso próprio orgulho não esconde, às vezes, inseguranças ou limitações? E será que não participamos, mesmo que sem querer, dessas rodinhas de aplausos vazios?

Erasmo não poupava nem a si mesmo em suas sátiras - e talvez seja essa autocrítica que torna sua observação tão duradoura e pertinente, cinco séculos depois.

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