A Fome


 

No mundo contemporâneo, marcado por avanços extraordinários nas áreas da tecnologia, da agricultura e da logística, é moralmente inaceitável que milhões de pessoas ainda passem fome ou morram em decorrência da desnutrição.

A fome não pode ser atribuída à falta de recursos ou de capacidade produtiva: ela é, sobretudo, uma falha ética e política. Mais do que um problema técnico, trata-se de um retrato cruel da desigualdade estrutural que organiza o sistema econômico global. Enquanto uma parcela ínfima da população acumula riquezas exorbitantes, outra luta diariamente pelo direito mais básico de todos: comer.

Essa disparidade não é fruto do acaso. Ela é sustentada por interesses econômicos, políticos e sociais que, direta ou indiretamente, lucram com a miséria. A concentração de terras, o controle das cadeias alimentares por grandes corporações e a especulação sobre alimentos transformam a comida - um direito humano fundamental - em mercadoria submetida às leis do mercado. Nesse modelo, vidas humanas tornam-se secundárias diante do lucro.

A fome não apenas perpetua a pobreza como alimenta um ciclo perverso de doenças e exclusão. A desnutrição compromete o sistema imunológico, aumenta a vulnerabilidade a infecções, prejudica o desenvolvimento físico e cognitivo de crianças e favorece o surgimento de doenças crônicas ao longo da vida.

Uma população bem alimentada seria, inevitavelmente, uma população mais saudável, reduzindo drasticamente a pressão sobre os sistemas de saúde pública. Isso nos leva a uma pergunta incômoda: se os benefícios são tão evidentes, por que o descaso persiste?

Em muitos casos, a resposta está nos interesses econômicos que se beneficiam da manutenção desse quadro. A indústria farmacêutica lucra com doenças evitáveis, enquanto grandes conglomerados do agronegócio priorizam exportações, monoculturas e commodities, negligenciando a segurança alimentar local e a diversidade nutricional.

Os acontecimentos recentes agravaram ainda mais esse cenário já crítico. Conflitos armados, como os que ocorrem na Ucrânia, no Sudão, no Oriente Médio e em outras regiões, destroem infraestruturas, interrompem cadeias de suprimento e deslocam milhões de pessoas, transformando populações inteiras em dependentes de ajuda humanitária.

As mudanças climáticas, por sua vez, intensificam secas prolongadas, enchentes devastadoras e eventos extremos que arruínam colheitas, especialmente em países pobres da África Subsaariana, da América Latina e do Sul da Ásia - justamente aqueles que menos contribuíram para a crise ambiental global.

A pandemia de COVID-19 também escancarou as fragilidades do sistema alimentar mundial. O fechamento de fronteiras, a interrupção de transportes e a perda massiva de empregos elevaram os preços dos alimentos e empurraram milhões de pessoas para a insegurança alimentar.

Segundo dados das Nações Unidas, em 2023 cerca de 733 milhões de pessoas enfrentaram fome ou insegurança alimentar grave. Esse número não representa apenas a escassez de alimentos, mas a falência de um modelo global incapaz de priorizar o bem-estar humano acima de interesses financeiros.

Ainda assim, a erradicação da fome não é um sonho utópico. Ela é plenamente possível. Exige, no entanto, vontade política, redistribuição de renda, reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar e investimento em políticas públicas que garantam acesso à alimentação saudável e suficiente.

Experiências bem-sucedidas em diferentes países demonstram que programas de produção local, merenda escolar, renda mínima e apoio a pequenos produtores podem transformar realidades em curto espaço de tempo.

O verdadeiro obstáculo não é a falta de soluções, mas a ausência de compromisso coletivo. Enquanto o lucro continuar sendo colocado acima da vida, a fome permanecerá como uma ferida aberta na consciência da humanidade.

Combatê-la é uma responsabilidade ética que ultrapassa governos e instituições: cabe também à sociedade civil recusar a naturalização dessa tragédia evitável e exigir um mundo onde ninguém precise escolher entre a fome e a sobrevivência.

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