Hitler e a Dissolução das Resistências Coletivas
“Hitler inventou um método ao qual se pode
chamar estratégia do grupo nazista. O ponto central dessa estratégia
psicológica é jamais considerar o indivíduo como pessoa isolada, mas sempre
como membro de um grupo social.
Hitler sabia instintivamente que, enquanto as
pessoas se sentissem protegidas pelos seus próprios grupos, permaneceriam
imunes à sua influência. O artifício essencial consistia em quebrar a
resistência espiritual e moral do indivíduo por meio da desorganização dos
grupos aos quais ele pertencia.
Ele sabia que um homem sem vínculos é como um
caranguejo sem carapaça. Assim, sua estratégia tinha duas fases principais: a
decomposição dos grupos tradicionais e, em seguida, uma reconstrução acelerada
com base em um novo padrão de pertencimento social.”
Esse trecho - retirado do capítulo “A
Estratégia do Grupo Nazista”, no livro Diagnóstico do Nosso Tempo (Diagnosis of
Our Time), de Karl Mannheim - sintetiza uma das interpretações mais profundas
sobre o poder totalitário nazista.
Mannheim, um sociólogo húngaro-alemão exilado
durante o regime, argumentava que Hitler não conquistou o país apenas pela
violência ou propaganda explícita, mas por uma engenharia emocional voltada
para desarticular os vínculos coletivos.
A lógica da desintegração
Segundo Mannheim, o indivíduo isolado é mais
vulnerável à dominação, pois perde amparo, referências morais e um espaço
mental de contestação. Antes de Hitler ascender ao poder, a Alemanha possuía
uma vida associativa intensa: sindicatos fortes, imprensa plural, partidos diversos,
círculos estudantis, fraternidades, movimentos religiosos e cooperativas
econômicas.
São esses grupos que dão identidade ao
indivíduo e constituem um tecido social resistente. A estratégia nazista foi,
inicialmente, dissolver esse tecido. Não apenas dissolver - desgastar,
desacreditar e humilhar.
Entre os métodos usados estavam: desacreditar
instituições democráticas da República de Weimar, estimular crises internas
contrárias à governabilidade, infiltrar militantes nazistas em sindicatos e
associações, espalhar paranoia e teorias conspiratórias, usar violência
seletiva contra lideranças opositoras e aprovar leis repressivas que
paralisavam a ação civil.
Esse processo culminou, entre 1933 e 1934, no
que ficou conhecido como Gleichschaltung: a “sincronização” ou “coordenação
obrigatória” de toda a sociedade.
A fase da reconstrução totalitária
Uma vez destruídos os vínculos anteriores,
Hitler ofereceu novos vínculos - uniformes, monolíticos, hierarquizados,
sacralizados. Cada indivíduo foi reencaixado em estruturas paralelas: DAF
(Frente Alemã do Trabalho) substituiu todos os sindicatos independentes.
Juventude Hitlerista (Hitlerjugend)
sequestrou a socialização da infância e juventude. Liga das Moças Alemãs
moldava o ideal feminino submisso e maternal. SA e SS criavam grupos de elite,
com juramentos ritualísticos. Liga Nacional-Socialista dos Professores
controlava o ensino. Câmaras culturais nazistas ditavam arte, imprensa e
literatura
Desfazer os laços era apenas o começo;
reconstruí-los era o ponto decisivo. Mannheim observou que a reconstrução
nazista era mais eficiente porque substituía vínculos naturais por vínculos
artificiais, projetados com autoridade militar e sedução simbólica.
A nova identidade não surgia de dentro; era
imposta de fora - uniforme, hino, disciplina, medo. A consolidação pela
violência simbólica e real. Alguns acontecimentos exemplificam esse processo:
1933 - Decreto do Incêndio do Reichstag: Suspensão
de direitos civis, perseguição a adversários e censura da imprensa.
Maio de 1933 - Dissolução dos sindicatos: Milhares
de líderes sindicais presos; sedes ocupadas e bandeiras queimadas.
1934 - Noite das Facas Longas: Extermínio de
dissidentes dentro do próprio movimento nazista; mensagem clara: lealdade
absoluta.
1935 - Leis de Nuremberg: Quebra definitiva
dos vínculos entre judeus e a sociedade alemã: perda de cidadania, isolamento
moral e jurídico. A partir daí, Hitler não apenas governava; Hitler substituía
todas as outras formas de pertencimento.
O ápice da dominação
Quando a Alemanha invade a Polônia, em
setembro de 1939, o país já não tinha fraturas internas. A sociedade fora
moldada para obedecer - psicologicamente, emocionalmente e simbolicamente.
O resultado é conhecido: O Holocausto, com 6
milhões de judeus exterminados. O assassinato de dissidentes, deficientes,
ciganos, homossexuais e opositores. Uma guerra que matou mais de 70 milhões de
pessoas. A estratégia funcionou porque atacou aquilo que sustenta o indivíduo:
seu abrigo coletivo.
O diagnóstico de Mannheim - e o aviso
Mannheim não escrevia apenas como
historiador, mas como alguém que fugiu do colapso. Ele dizia que o
totalitarismo moderno não precisa destruir corpos primeiro; precisa destruir
relações. Essa é a chave.
Quando um regime consegue: desmoralizar a
imprensa, fragmentar a sociedade em bolhas hostis, desacreditar instituições
científicas e educacionais, destruir sindicatos, movimentos sociais e partidos,
transformar pessoas isoladas em massas obedientes, então a obediência deixa de
ser imposição e torna-se necessidade psicológica.
Por isso, Mannheim enxergava no nazismo não
apenas um capítulo histórico, mas um manual de alerta. A tirania moderna não
começa com tanques; começa com isolamento.
Não começa com tiros; começa com o
enfraquecimento dos vínculos afetivos e públicos. O espírito coletivo, quando
desmontado, deixa o indivíduo exposto - como um caranguejo sem carapaça.
Hitler entendeu isso com precisão sombria. E essa lição permanece como um dos maiores perigos para qualquer sociedade que começa a se dividir enquanto alguém, de longe, prepara a reconstrução.

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