A Morte


 

Sei que um dia a morte virá, como um vento frio que apaga a chama de uma vela já cansada de arder. Não chega como surpresa, sua presença sempre caminhou ao meu lado, mas ainda assim carrega um peso que aperta o peito, um silêncio espesso que fala de tudo o que deixarei para trás. Ela não anuncia hora nem pede licença; apenas espera, paciente, enquanto seguimos fingindo que o tempo é infinito.

Enquanto esse momento não chega, esforço-me para preservar dentro de mim um coração de criança, aquele que ainda se permite encantar com o brilho breve de um raio de sol atravessando a janela, com o som distante de uma canção esquecida ou com o voo despretensioso de um pássaro qualquer.

Esse coração ingênuo é o que me lembra que a vida, apesar de tudo, ainda pulsa em detalhes quase invisíveis. Mas é com a coragem exausta de um adulto que sigo adiante.

Uma coragem que não nasce da esperança, mas da necessidade. Enfrento o mundo com suas promessas quebradas, seus afetos frágeis e suas cicatrizes profundas, marcas que o tempo não apaga, apenas ensina a carregar. Crescer é aceitar que nem tudo se resolve, que algumas dores apenas mudam de lugar.

A vida revela-se como uma sucessão de instantes frágeis, costurados por fios delicados de esperança e desilusão. Há dias em que o riso ecoa alto, quase verdadeiro, mas logo se dissolve na memória, como pegadas apagadas pela chuva. Tudo passa rápido demais, e quando percebemos, já se tornou lembrança.

Há noites em que a solidão se senta ao meu lado, pesada e insistente, e me obriga a contar as perdas: os rostos que já não vejo, as vozes que o tempo calou, os sonhos que escorreram entre os dedos sem que eu pudesse segurá-los. Penso nos momentos que nunca voltarão e nos caminhos que deixei para trás, perguntando-me se algum deles ainda me pertence.

É essa coragem adulta que me mantém de pé, mesmo quando o coração pesa como chumbo, mesmo quando o caminho parece se perder na névoa e o futuro se recusa a oferecer respostas. Continuar, às vezes, é o maior ato de resistência.

E, ainda assim, o coração de criança, tão frágil quanto teimoso,  insiste em procurar beleza nas coisas pequenas: uma flor que resiste ao outono, um céu cinzento que promete chuva, um gesto simples que aquece o dia. É ele quem me salva de endurecer por completo.

A morte, com sua certeza implacável, é um espelho que reflete a brevidade de tudo. Cada dia vivido é também um adeus silencioso a algo que não retorna. O tempo não devolve, apenas segue. Ainda assim, caminho, carregando o fardo de existir, consciente de que cada passo é uma dança delicada com o efêmero.

E quando a morte finalmente chegar, que ela me encontre com os olhos cheios de lembranças, as mãos marcadas por tudo o que tentei segurar e a alma atravessada por uma melancolia doce, a melancolia de quem viveu, amou, sofreu e, mesmo cansado, jamais desistiu de buscar algum sentido no breve intervalo entre o nascer e o partir.

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