Sangue que Ferve: O Relato Chocante de Charles Darwin sobre a Escravidão no Brasil
Ao chegar ao Brasil em 1832, durante a
célebre viagem do HMS Beagle, Charles Darwin
deparou-se não apenas com a exuberância tropical que tanto o fascinou do ponto
de vista científico, mas também com uma realidade social brutal que o marcou de
forma indelével: a escravidão.
O jovem naturalista, então com apenas 23
anos, ficou profundamente horrorizado com o que viu e ouviu durante sua
permanência no Rio de Janeiro, onde permaneceu por cerca de quatro meses, entre
abril e julho daquele ano.
Em A Viagem
do Beagle, Darwin registrou impressões contundentes sobre as
crueldades cotidianas impostas aos escravizados, descrevendo cenas que lhe
causaram repulsa moral e indignação quase física. Em um dos trechos mais
perturbadores, escreveu:
“Perto do Rio de
Janeiro, morei em frente a uma velha senhora que possuía tarraxas (ou
parafusos) para esmagar os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive
hospedado, um jovem mulato criado era, todos os dias e a todo momento,
insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz de desanimar até o mais
resistente dos animais.
Vi, com meus
próprios olhos, um garotinho de seis ou sete anos ser violentamente golpeado na
cabeça com um chicote - antes que eu pudesse intervir - apenas porque me havia
servido um copo de água ligeiramente turva.
E essas
atrocidades são cometidas por pessoas que se dizem cristãs, que afirmam amar o
próximo como a si mesmas, que creem em Deus e rezam para que Sua vontade seja
feita na Terra!
O sangue ferve
em nossas veias e o coração bate mais forte ao pensarmos que nós, ingleses, e
nossos descendentes americanos - com seu orgulhoso grito em favor da liberdade -
fomos e ainda somos cúmplices desse imenso crime.”
Esses relatos
não constituem episódios isolados ou exceções extremas. Ao longo de sua estada
no Brasil, Darwin observou repetidamente a violência normalizada contra pessoas
escravizadas, muitas vezes praticada à luz do dia, sem qualquer constrangimento
social.
Ele menciona o uso recorrente de instrumentos
de tortura, como os “thumb-screws”
- tarraxas destinadas a comprimir e esmagar os dedos -, que descreve como
objetos relativamente comuns em residências de famílias abastadas, não como
artefatos de exceção, mas como ferramentas domésticas de disciplina.
Darwin também
tomou conhecimento do tráfico ilegal de africanos escravizados, que continuava
a operar apesar da proibição britânica do comércio transatlântico desde 1807 e
dos acordos firmados com o Império do Brasil.
Relata rumores e testemunhos sobre navios
negreiros que lançavam pessoas ao mar para evitar apreensões por patrulhas
inglesas, além da impunidade sistemática garantida aos senhores ricos, cujos
crimes raramente eram investigados ou punidos.
Profundamente
abalado por tudo o que presenciou, Darwin encerrou suas observações sobre o Brasil
com uma declaração célebre e definitiva: “Nunca mais hei de
visitar um país escravista” (“I
shall never again visit a slave-country”).
Sua repulsa à escravidão tornou-se um traço
permanente de sua visão moral e humanitária ao longo da vida, contrastando
fortemente com a posição de seu capitão no Beagle, Robert FitzRoy, que,
apesar de religioso, defendia a instituição escravista como compatível com a
ordem social e até com a fé cristã - uma contradição que Darwin jamais
conseguiu aceitar.
A imagem mencionada
- um bispo episcopal sendo transportado em um riquixá puxado por dois homens -
funciona como uma poderosa metáfora visual da hipocrisia religiosa e da
exploração humana denunciadas por Darwin.
Embora o riquixá esteja mais associado ao
contexto asiático, especialmente no Japão e na China do final do século XIX,
representações semelhantes de figuras religiosas, autoridades coloniais ou
homens brancos sendo carregados por pessoas subjugadas eram frequentes em
ilustrações do período colonial e imperial.
No Brasil escravista, era comum que
escravizados realizassem tarefas humilhantes de transporte humano, como
carregar senhores em cadeirinhas ou liteiras, evidenciando hierarquias raciais
e sociais extremas.
Essa cena
sintetiza o contraste que tanto indignou Darwin: líderes religiosos pregando
caridade, humildade e amor ao próximo, enquanto se beneficiavam diretamente da
opressão, da violência e do trabalho forçado. A fé, em vez de freio moral,
surgia frequentemente como verniz legitimador da barbárie.
Os relatos de Darwin continuam dolorosamente
atuais. Eles nos obrigam a confrontar o fato de que a escravidão não foi apenas
um sistema econômico do passado, mas uma estrutura profundamente enraizada na
formação social brasileira.
Seus efeitos persistem nas desigualdades, no
racismo estrutural e nas violências que ainda atravessam o presente. Ler Darwin
hoje não é apenas revisitar a história: é encarar um espelho incômodo que
reflete continuidades que preferiríamos esquecer.

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