Quando a verdade incomoda
Se você arrastar um homem para
fora da caverna e, pela primeira vez, mostrar-lhe o sol, talvez ele não lhe
agradeça. Ao contrário: poderá amaldiçoá-lo pela dor que a luz provoca em seus
olhos e implorar para voltar à escuridão que conhecia. Essa é uma das ideias
mais perturbadoras presentes na Alegoria da Caverna, de Platão.
A escuridão, quando se torna
familiar, deixa de parecer assustadora. As sombras passam a ser confundidas com
a realidade, e aquilo que conhecemos – mesmo quando nos aprisiona – pode parecer
mais confortável do que aquilo que nos obriga a enxergar.
É por isso que, muitas vezes,
as pessoas resistem à verdade. Não necessariamente porque ela seja falsa, mas
porque a verdade pode exigir mudanças.
Enxergar significa questionar
antigas certezas. Significa reconhecer que talvez estivéssemos errados, que
determinadas crenças foram construídas sobre ilusões e que algumas das
correntes que nos prendem podem estar sendo mantidas por nós mesmos.
Há uma espécie de conforto na
ignorância. Ela não exige grandes decisões, não nos obriga a abandonar velhos
hábitos e, principalmente, não nos coloca diante da responsabilidade de
escolher um novo caminho.
Talvez seja essa a parte mais
difícil de compreender: nem sempre quem está preso deseja ser libertado. Algumas
pessoas amam tanto as suas certezas que preferem defender as próprias correntes
a enfrentar a liberdade que existe do outro lado delas.
A luz pode ferir os olhos no
primeiro instante. A verdade também. Mas, depois que os olhos se acostumam,
talvez descubramos que aquilo que chamávamos de realidade era apenas uma sombra
projetada na parede.
E talvez a verdadeira
liberdade comece justamente no momento em que temos coragem de olhar para o
sol.

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