O Deus-Governador
O Deus-Governador e a contradição do Inferno: pode a infinita bondade condenar eternamente?
O Deus-Governador, ou Deus concebido
como Providência, é apresentado pela teologia como um ser infinitamente bom,
infinitamente misericordioso e dotado de poder absoluto. Mas, se assim é, como
conciliar esses atributos com a existência do Inferno e a possibilidade de um
sofrimento eterno?
Atentai bem ao raciocínio.
Deus poderia – porque é livre –
não nos ter criado. Entretanto, criou-nos. Poderia – porque é todo-poderoso –
ter-nos criado a todos bons, capazes de viver em harmonia, sem a inclinação
para o mal.
No entanto, segundo a própria
tradição religiosa, criou seres capazes de praticar tanto o bem quanto o mal,
sujeitos a falhas, contradições, paixões e escolhas que nem sempre conseguem
compreender ou controlar plenamente.
Poderia ainda – se é
infinitamente bom e misericordioso – acolher a todos após a morte,
concedendo-lhes a paz do Paraíso e considerando suficientes as dores, as
angústias, as injustiças e as provações enfrentadas durante a breve existência
terrena.
Mas não é essa a concepção
tradicional do inferno, segundo a qual a condenação pode ser eterna.
É justamente aí que surge o
problema filosófico: como conciliar uma punição sem fim com uma vida humana
limitada, marcada pela ignorância, pela fragilidade e por erros cometidos ao
longo de poucas décadas?
Um ser humano pode errar por
maldade, mas também por medo, desespero, ignorância, influência do meio em que
vive ou pelas circunstâncias em que foi criado. Nem todos dispõem das mesmas
oportunidades, da mesma educação ou das mesmas condições para distinguir o
certo do errado. Seria justo submetê-los todos a uma mesma medida de
julgamento?
Se Deus conhece
antecipadamente nossas escolhas, conhece nossas limitações e sabe até onde
podemos chegar, por que permitir que existam as condições para a perdição
eterna? E, se poderia intervir para evitar esse destino, por que não o faz?
Os defensores da doutrina do
Inferno costumam recorrer ao livre-arbítrio: Deus teria concedido ao ser humano
a liberdade de escolher entre o bem e o mal, respeitando suas decisões. Outros
argumentam que a condenação seria consequência da rejeição voluntária de Deus.
Essas respostas, porém, não
encerram a discussão. Permanece a questão sobre como uma escolha humana,
necessariamente limitada no tempo e no conhecimento, poderia justificar uma
consequência infinita.
Afinal, uma misericórdia que
termina diante do erro humano pode ser considerada infinita? E uma justiça que
admite sofrimento eterno para criaturas finitas corresponde à ideia de uma
bondade perfeita?
Não se trata apenas de negar
ou afirmar a existência de Deus. Trata-se de examinar criticamente a imagem
divina construída por determinadas tradições religiosas e verificar se os
atributos que lhe são atribuídos são realmente compatíveis entre si.
Se Deus é infinitamente bom,
sua bondade não deveria ultrapassar a capacidade humana de compreender o bem?
Se é infinitamente misericordioso, não deveria sua misericórdia ser maior do
que qualquer erro cometido por suas criaturas?
Talvez a questão mais incômoda
não seja saber quem merece o Inferno, mas perguntar se a ideia de um castigo
eterno pode coexistir, sem contradição, com a imagem de um Deus perfeitamente
bom.
Pensar não é blasfemar.
Questionar não é necessariamente negar. E buscar coerência entre aquilo em que
acreditamos e aquilo que afirmamos sobre a justiça é um exercício legítimo da
razão humana.
Porque uma crença não se torna
verdadeira apenas por ser antiga, sagrada ou repetida durante séculos. Ela
também pode – e deve – ser submetida ao exame da consciência, da lógica e da
reflexão filosófica.

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