Entre a Cruz e a Fogueira
Entre a Cruz e a Fogueira: O Sofrimento Redentor de Jesus e as Sombras Históricas da Inquisição
Você já parou para refletir sobre a diferença
profunda entre o sofrimento de Jesus na cruz e o sofrimento de milhares de
pessoas - muitas delas inocentes ou acusadas por motivos frágeis - que foram
presas, torturadas ou executadas durante os períodos da Inquisição promovida
pela Igreja Católica?
Jesus foi
submetido à crucificação romana, uma das penas mais cruéis da Antiguidade:
flagelação severa, humilhação pública, a obrigação de carregar o patíbulo sob
escárnio, pregos cravados nas mãos e nos pés, asfixia progressiva e uma morte
lenta e agonizante.
Historicamente, a crucificação era reservada
a escravos, rebeldes e inimigos do Império, com o objetivo não apenas de matar,
mas de intimidar e expor. No entanto, segundo a teologia cristã, esse
sofrimento não foi apenas físico nem meramente político.
Para a fé cristã, Jesus - reconhecido como
inocente e divino - teria assumido voluntariamente os pecados da humanidade
para reconciliar o mundo com Deus. Seu sofrimento é interpretado como ato
redentor, expressão máxima de amor e perdão. E, conforme o núcleo da fé cristã,
culmina na ressurreição, entendida como vitória sobre a morte e o mal.
Em contraste,
durante as diversas fases da Inquisição - a medieval (a partir do século XIII),
a espanhola (instituída em 1478), a portuguesa (em 1536) e a romana - milhares
de pessoas enfrentaram processos conduzidos por uma instituição que se
apresentava como guardiã da ortodoxia da fé.
A Inquisição Espanhola, a mais duradoura e
conhecida, julgou entre 120.000 e 150.000 pessoas ao longo de cerca de três
séculos e meio. Estimativas historiográficas apontam algo entre 3.000 e 5.000
execuções - números significativamente menores do que os milhões divulgados em
séculos passados por literatura panfletária anticatólica, mas ainda assim
representativos de sofrimento real. A taxa de pena capital variava entre 2% e
4% dos processos.
Já a Inquisição Portuguesa teria condenado cerca de
1.175 pessoas à morte na fogueira entre 1540 e 1794, além de centenas de
execuções simbólicas em efígie (quando o réu já estava morto ou foragido). A Inquisição Romana, criada no século XVI,
apresentou números menores de execuções, especialmente após reformas jurídicas
internas.
Os acusados
variavam: cristãos-novos suspeitos de praticar o judaísmo em segredo,
muçulmanos convertidos, protestantes, pessoas acusadas de bruxaria, bigamia,
sodomia ou práticas consideradas supersticiosas.
Embora a tortura fosse regulamentada por normas
específicas e não aplicada em todos os casos, ela existiu e foi utilizada como
instrumento de obtenção de confissões. As prisões podiam durar anos, e o
confisco de bens frequentemente arruinava famílias inteiras.
No Brasil
Colônia, a atuação inquisitorial ocorreu principalmente por meio de visitas e
envio de acusados a Lisboa. Mais de mil pessoas foram investigadas, e ao menos
29 acabaram condenadas à fogueira na metrópole. O impacto social era profundo:
medo, denúncias anônimas, rupturas familiares e estigmatização pública.
A diferença
central entre o sofrimento de Jesus e o das vítimas da Inquisição não reside
apenas na intensidade da dor física - que, em ambos os casos, foi extrema -,
mas no significado atribuído a cada experiência.
No relato
cristão, o sofrimento de Jesus é voluntário, redentor e universal; não foi
imposto por uma instituição religiosa em defesa de poder, mas infligido por
autoridades políticas do Império Romano.
Já o sofrimento das vítimas da Inquisição foi
resultado de decisões humanas, inseridas em um contexto histórico específico,
marcado pela fusão entre religião, poder político e necessidade de manter a
unidade social em uma época em que divergência religiosa era vista como ameaça
à ordem pública.
É importante
reconhecer também que a mentalidade da época era diferente da atual: a ideia
moderna de liberdade religiosa simplesmente não existia como princípio
universal. Estados e religiões estavam profundamente entrelaçados. Ainda assim,
isso não elimina o sofrimento causado nem as injustiças cometidas.
Séculos depois,
a própria Igreja Católica reconheceu excessos e erros históricos. No Jubileu do
ano 2000, o Papa João Paulo II pediu
publicamente perdão pelos pecados cometidos por filhos da Igreja ao longo da
história, incluindo abusos relacionados à intolerância religiosa.
Esse gesto representou um reconhecimento
institucional de que a violência jamais pode ser justificada em nome da fé. Refletir
sobre essa comparação não significa equiparar teologicamente os acontecimentos,
mas questionar como uma mensagem fundada no amor, no perdão e no sacrifício
voluntário pôde, em determinados períodos históricos, coexistir com práticas
coercitivas e punitivas.
A tensão entre ideal e prática revela não apenas a fragilidade das instituições humanas, mas também a complexidade da história. No fim, talvez a pergunta mais profunda não seja apenas sobre quem sofreu mais, mas sobre como o sofrimento é interpretado, instrumentalizado ou redimido - e o que aprendemos, como sociedade, ao confrontar essas memórias.

Comentários
Postar um comentário