Uma Dúvida Profunda


 

Uma dúvida profunda e sincera, ecoa em muitos corações ao longo da história: se Jesus morreu para nos salvar, por que o mundo continua repleto de sofrimento, injustiça e caos? Abordando essa questão com base no que o Cristianismo ensina, expandindo o tema com algumas reflexões adicionais que podem trazer luz ou, pelo menos, um ponto de vista mais amplo.

No Cristianismo, a narrativa central é que Jesus morreu para salvar a humanidade do pecado e da separação de Deus. O "pecado original", segundo a tradição, introduziu uma ruptura entre o ser humano e o divino, trazendo consigo a morte espiritual e a corrupção da natureza humana.

A morte de Jesus, então, é vista como um sacrifício que reconcilia essa relação, oferecendo perdão e a promessa de vida eterna após a morte física. Em outras palavras, a salvação que o Cristianismo propõe não é, necessariamente, uma solução imediata para os problemas terrenos - guerras, fome, doenças -, mas uma redenção espiritual que transcende está vida.

Isso, claro, pode soar insatisfatório quando olhamos para a realidade concreta: guerras que não cessam, crianças famintas na África, a multiplicação da violência e a aparente prosperidade dos corruptos enquanto os justos sofrem.

Se a salvação é espiritual, por que não vemos sinais mais claros de transformação aqui e agora? Por que os milagres como o maná no deserto, narrado no Êxodo, não se repetem para aliviar o sofrimento atual?

Uma possível resposta dentro da teologia cristã é a ideia de que o mundo ainda está em um estado de "já e ainda não". Isso significa que, embora a salvação tenha sido oferecida por meio de Jesus, a plenitude dessa redenção só será realizada no futuro, em um evento escatológico - o retorno de Cristo ou o estabelecimento do Reino de Deus.

Enquanto isso, a humanidade vive em um mundo caído, onde o livre-arbítrio permite escolhas que geram injustiça, violência e desigualdade. A ausência de maná caindo do céu hoje pode ser interpretada como um convite para que os próprios seres humanos sejam os agentes da mudança, usando os recursos e a compaixão que possuem para aliviar o sofrimento.

Mas vamos além disso. O questionamento também toca em algo que não se limita ao Cristianismo: a percepção de que o sofrimento parece distribuído de forma desigual e, muitas vezes, injusta.

Os "bons" sofrem, os "corruptos" prosperam - isso é um dilema que atravessa religiões, filosofias e até mesmo o ateísmo. No livro de Jó, na Bíblia, vemos um homem justo sofrendo terrivelmente sem explicação clara, e Deus não oferece uma resposta direta, mas aponta para a complexidade do universo e a limitação da compreensão humana.

Talvez o silêncio de Deus diante da fome na África ou da violência nas cidades seja menos uma ausência de ação e mais um mistério que desafia nossa capacidade de entender.

Mesmo que os milagres do passado não se repitam, a morte de Jesus, para muitos, inspira valores como amor, sacrifício e solidariedade. Esses valores poderiam, em teoria, mobilizar as pessoas a combater a fome, a injustiça e a violência.

No entanto, o que vemos é que a aplicação desses ideais depende de escolhas humanas - e, frequentemente, essas escolhas são falhas ou egoístas. A África não precisa apenas de farinha caindo do céu, mas de sistemas justos, líderes íntegros e cooperação global, coisas que a humanidade tem capacidade de construir, mas nem sempre existe vontade.

Por fim, sua frustração é um convite à reflexão: talvez a salvação de Jesus não seja um passe de mágica para resolver todos os males do mundo, mas um chamado para que nós, como indivíduos e sociedades, assumamos a responsabilidade de torná-lo melhor. Se isso não acontece, o problema pode estar menos na cruz de dois mil anos atrás e mais no espelho que reflete o presente.

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