O distanciamento social como vingança e controle
Nos dias da pandemia de COVID-19.
Cientistas e autoridades já não disfarçam o
desejo de impor uma coerção mais dura contra quem questiona ou descumpre as
regras de distanciamento social.
Essa postura revela algo mais profundo do que
uma simples medida sanitária. Ao longo da história, projetos políticos
revolucionários ou totalitários sempre miraram, em primeiro lugar, na
dissolução dos laços mais próximos do ser humano: a família e, em seguida, as
comunidades tradicionais que dão sentido e proteção à vida individual.
A estratégia consiste em enfraquecer essas
mediações naturais, substituindo-as pelo Estado — ou pelo partido que o
controla — como único intermediário possível nas relações sociais. Sem família
forte, sem vizinhos unidos, sem associações livres, o indivíduo fica exposto,
dependente e mais fácil de ser moldado.
Adolf Hitler compreendeu e aplicou essa
lógica com frieza calculada. O sociólogo Karl Mannheim, exilado da Alemanha
nazista, analisou isso com clareza no livro Diagnóstico do Nosso Tempo
(1943/1944), especialmente no capítulo “A Estratégia do Grupo Nazista”.
Para Mannheim, Hitler não via o indivíduo
como pessoa autônoma, mas sempre como membro de um grupo social. Enquanto as
pessoas permanecessem protegidas por seus laços familiares, religiosos,
comunitários ou partidários tradicionais, resistiriam à influência do regime.
Por isso, a primeira etapa era romper esses grupos de dentro para fora.
Mannheim descreve como os nazistas usavam uma
“guerra-relâmpago” social: desorganizavam rapidamente a sociedade civil,
explorando crises como o desemprego, infiltrando-se em instituições, semeando
desconfiança e isolando as pessoas.
Uma vez enfraquecidos os vínculos antigos,
criavam novos grupos — baseados em lealdade ao Führer, juventude hitlerista,
organizações do partido — que substituíam a família e a comunidade por uma
lealdade total ao Estado.
O resultado era um indivíduo desprotegido,
inseguro, mais propenso a aceitar a “nova ordem” por medo, desespero ou
oportunismo. Boatos, propaganda, bodes expiatórios e terror psicológico faziam
o resto.
Essa dinâmica não é exclusiva do nazismo. Regimes
totalitários de diferentes matizes — do stalinismo ao maoísmo — perseguiram o
mesmo objetivo: atomizar a sociedade para reconstruí-la sob controle central.
Famílias foram divididas, igrejas perseguidas, tradições culturais destruídas
em nome de um “homem novo” leal apenas ao partido.
O que parecia uma crise passageira servia, na
verdade, para consolidar o poder de longo prazo. Nos acontecimentos recentes
ligados à pandemia, vimos ecos inquietantes dessa lógica, ainda que em
contextos democráticos e com justificativas sanitárias.
O distanciamento social prolongado isolou
famílias, interrompeu rituais comunitários, fechou escolas, igrejas e
associações. Muitos sentiram na pele a solidão, o aumento de problemas mentais,
a tensão em casa e a dependência crescente de orientações oficiais ou de
telas.
Críticas a medidas mais radicais foram
frequentemente tratadas não como debate legítimo, mas como ameaça coletiva a
ser reprimida — com multas, vergonha pública ou censura. Humanamente, é
compreensível o medo diante de uma doença nova e o desejo de proteger os
vulneráveis.
Mas quando o remédio social proposto
enfraquece justamente as estruturas que sempre ajudaram os seres humanos a
enfrentar crises — o abraço de um familiar, o apoio do bairro, a fé
compartilhada —, vale perguntar: estamos fortalecendo a sociedade ou tornando-a
mais frágil e dependente?
A lição de Mannheim continua atual: grupos
humanos saudáveis resistem melhor a manipulações. Manter vivos os laços de
família, amizade e comunidade não é teimosia ou negacionismo — é a forma mais
natural e resiliente de enfrentar desafios, inclusive os sanitários.
Em vez de apostar apenas em coerção vinda de cima, talvez seja mais sábio investir na responsabilidade adulta e nas redes espontâneas de solidariedade que sempre existiram entre as pessoas.

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