Mamute Lanoso
Mamute Lanoso A Descoberta de Yuka e os Avanços na Paleontologia
Em agosto de 2010, durante um degelo
acelerado causado pelas mudanças climáticas em partes remotas da Sibéria, na
Rússia, caçadores locais de presas de marfim (conhecidos como "tusk
hunters") fizeram uma das descobertas paleontológicas mais impressionantes
do século XXI.
Perto da costa de Oyogos Yar, no Estreito de
Dmitry Laptev (aproximadamente 30 km a oeste da foz do rio Kondratievo, na
região do Mar de Laptev, eles desenterraram o cadáver mumificado de um jovem
mamute lanoso, apelidado de "Yuka" em homenagem à aldeia indígena de
Yukagir próxima.
Com cerca de 39 mil anos de idade,
determinada por datação por radiocarbono, o exemplar pesava aproximadamente uma
tonelada e media cerca de 1,8 metro de comprimento - um bezerro de 6 a 9 anos,
fêmea, que já exibia características adultas como presas curvas e um corpo
robusto adaptado ao frio glacial. O que tornou Yuka verdadeiramente
extraordinário foi seu estado de preservação quase milagroso.
Envolto no permafrost - o solo
permanentemente congelado que atua como um "congelador natural" -, o
mamute reteve não apenas sua pele avermelhada e pelos longos e ondulados, mas
também tecidos moles, músculos, tendões, vasos sanguíneos e, de forma inédita,
o cérebro quase intacto, com dobras e a dura-máter (membrana protetora)
visíveis.
Cientistas russos, liderados por Semyon
Grigoriev do Museu do Mamute Lazarev (da Universidade Federal do Nordeste, em
Yakutsk), foram os primeiros a extrair amostras de sangue líquido das cavidades
do corpo, um feito histórico que abriu portas para análises genéticas
avançadas.
Inicialmente armazenado em um
"lednik" natural (um freezer de permafrost) por dois anos para evitar
decomposição, Yuka foi transportado para a Academia de Ciências de Sakha, em
Yakutsk, e, desde outubro de 2014, está em exibição no Museu de Paleontologia
de Moscou, onde atrai milhares de visitantes fascinados por essa janela para a
Era do Gelo.
Pesquisas subsequentes revelaram detalhes
dramáticos sobre a morte de Yuka. Evidências sugerem que ela pereceu enquanto
atravessava um pântano ou lago raso, possivelmente afogada ou presa em lama
movediça durante o Interstadial de Molotkovskian (um período relativamente
quente no Estágio Isotópico Marinho 3, ou MIS 3, cerca de 39-40 mil anos
atrás).
Marcas de mordidas de predadores, como um
corte de 1 metro ao longo das costas e arranhões ao redor dos olhos e presas,
indicam um ataque feroz de leões-das-cavernas (Panthera spelaea), felinos
extintos que caçavam em bandos e mediam até 3 metros de comprimento. Esses
predadores deixaram feridas profundas, mas o corpo congelou rapidamente após a
morte, graças às temperaturas subzero e à acumulação de gelo, preservando-o impecavelmente
por milênios.
Análises palinológicas (de pólen) e
macrofósseis vegetais extraídos dos sedimentos ao redor do crânio revelaram um
habitat de tundra mesofítica - uma paisagem de gramíneas, ervas e arbustos
baixos, com toques de floresta boreal, bem diferente do estereótipo de
"estepe-mamute" árida e uniforme.
Isso reforça a ideia de que o Pleistoceno
tardio era marcado por variações climáticas intensas, com invernos rigorosos e
verões mais amenos que permitiam a migração de manadas de mamutes.
Essa preservação excepcional permitiu avanços
científicos sem precedentes. Em 2014, tomografias computadorizadas (CT) e
ressonâncias magnéticas (MRI) mapearam o cérebro de Yuka em 3D, fornecendo o
primeiro vislumbre anatômico de um cérebro de mamute - o único caso conhecido
na paleoneurologia.
Mais recentemente, em novembro de 2025,
pesquisadores da Universidade de Estocolmo e colaboradores internacionais
anunciaram a extração e sequenciamento do RNA mais antigo já registrado:
fragmentos de RNA de Yuka, com cerca de 40 mil anos, revelaram genes ativados
no momento da morte, indicando estresse celular extremo, possivelmente ligado
ao ataque de predadores ou à hipotermia.
Esse RNA instável, que normalmente se degrada
em horas após a morte, oferece insights sobre processos biológicos em tempo
real, como respostas imunológicas e adaptações ao frio, e pode ajudar a estudar
vírus ancestrais da Era do Gelo, semelhantes aos que afetam elefantes modernos.
A descoberta de Yuka reacendeu o debate sobre
a "desextinção" - a possibilidade de reviver espécies extintas via
biotecnologia. Cientistas e pesquisadores da Coreia do Sul, em parceria com a
russa Sooam Biotech (fundada por Hwang Woo-suk, pioneiro em clonagem
controversa), foram os primeiros a vislumbrar o potencial de Yuka para
clonagem, extraindo células viáveis e DNA nuclear intacto.
No entanto, os esforços globais evoluíram
rapidamente. Nos Estados Unidos, a Colossal Biosciences - startup cofundada
pelo geneticista de Harvard George Church e o empreendedor Ben Lamm, avaliada
em US$ 10 bilhões após captar US$ 435 milhões em 2025 -, lidera o projeto de
"desextinção" do mamute lanoso.
Usando CRISPR-Cas9 para editar genes de
elefantes asiáticos (o parente vivo mais próximo), eles visam inserir traços
mamutianos como pelagem lanosa, orelhas menores para retenção de calor, gordura
subcutânea espessa e presas curvas.
Em março de 2025, a Colossal apresentou
"camundongos lanudos" - roedores geneticamente modificados com sete
genes editados, exibindo pelagem grossa, ondulada e dourada, bigodes cacheados
e maior tolerância ao frio -, como prova de conceito. Recentemente, em novembro
de 2025, a empresa adquiriu a ViaGen, pioneira em clonagem de pets (como cães
de celebridades), para aprimorar técnicas de implantação embrionária.
A meta é produzir os primeiros bezerros
híbridos em 2028, gestados por elefantes asiáticos em zoológicos, com o
objetivo duplo de restaurar ecossistemas árticos (onde mamutes ajudariam a
compactar neve e prevenir degelo) e desenvolver ferramentas para conservar elefantes
ameaçados.
No entanto, nem tudo é otimismo. Críticos,
como a filósofa Yasha Rohwer, alertam para riscos éticos: sofrimento de
elefantes doadores de óvulos, defeitos genéticos nos clones (como no caso da
cabra-montês-dos-pireneus, revivida em 2003 e morta logo após o nascimento) e
impactos ecológicos imprevisíveis, como a introdução de uma espécie
"híbrida" em habitats alterados pelo aquecimento global.
Além disso, evidências recentes em Yuka -
como marcas de cortes lineares em sua pele, possivelmente feitas por
ferramentas humanas de pedra - sugerem que Homo sapiens já interagiam com
mamutes na Ásia setentrional há 39 mil anos, desafiando teorias sobre a chegada
humana ao Ártico e adicionando camadas de complexidade cultural à narrativa.
Vale notar que Yuka não foi o primeiro mamute
jovem descoberto, mas sim o melhor preservado. Em 23 de junho de 1977, o
mineiro siberiano Anatoly Logachev tropeçou acidentalmente em uma carcaça
durante operações de extração de carvão perto do rio Kolyma, no nordeste da
Sibéria.
Nomeado "Dima" (em homenagem a um
riacho próximo, ou possivelmente ao filho de Logachev), o bezerro macho de 7-8
meses pesava cerca de 100 kg, media 1 metro de altura e 1,1 m de comprimento, e
datava de cerca de 40 mil anos atrás. Descoberto durante o verão, o corpo
começou a descongelar rapidamente, atraindo moscas e decomposição; Logachev o
cobriu com gelo e ergueu uma tenda improvisada por três dias até as autoridades
soviéticas intervirem.
Tratado em Leningrado (atual São Petersburgo)
com banhos de benzeno e embalsamamento em parafina, Dima perdeu quase toda a
pelagem loira e escureceu, mas permitiu o primeiro estudo anatômico detalhado
de um filhote de mamute, revelando semelhanças com elefantes modernos, como
órgãos internos proporcionais. Sua morte provavelmente ocorreu por afogamento
em um pântano instável durante o MIS 3, semelhante a Yuka, destacando como
paisagens voláteis - montanhas escarpadas e planícies alagadas - contribuíam
para a mortalidade infantil nas manadas.
Hoje, Dima está no Museu de Zoologia de São
Petersburgo, um marco que pavimentou o caminho para descobertas posteriores,
incluindo Lyuba (2007, na Península de Yamal) e outros seis filhotes
siberianos.
Essas achados não são meras relíquias; eles
iluminam um mundo perdido de megafauna, onde mamutes pastavam em tundras
vastas, moldando solos e climas, e interagia com humanos caçadores-coletores.
Com o permafrost derretendo mais rápido devido às emissões de carbono - liberando metano e até patógenos ancestrais -, urgentes se tornam os esforços para estudar e preservar esses tesouros antes que desapareçam para sempre. Yuka e Dima nos lembram: o passado glacial não está tão distante quanto parece, e revivê-lo pode ser a chave para salvar o futuro do planeta.

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