A Transparência dos Gestos
Se quiser compreender a mente de alguém, escute com atenção as palavras que ela escolhe
- não apenas o que diz, mas como
diz, o que repete com insistência, o que evita mencionar, o que exagera para
convencer, o que silencia para esconder.
As palavras são o mapa do território que a
pessoa acredita conhecer de si mesma; são a superfície polida do pensamento, o
que ela consegue racionalizar, organizar e apresentar ao mundo.
Mas se quiser
compreender o coração dessa pessoa - o
que ela realmente sente, teme, deseja, valoriza e não admite nem para si -
então observe as suas ações. Não as grandes declarações, não os discursos
emocionados, não as promessas feitas em noites inspiradas. Essas são fáceis.
São o palco.
Observe o que
ela faz quando ninguém está olhando. Observe para
onde vai quando tem liberdade, onde investe seu tempo quando não precisa
impressionar ninguém, onde colocar seu dinheiro quando não há plateia, como
distribui - ou retém - sua energia.
Observe como
trata o garçom que está exausto, o animal de rua que não pode retribuir nada, o
parente que incomoda, a criança que chora no avião, o ex que a feriu, o colega
que comete um erro, o desconhecido que não pode oferecer vantagem alguma. É
nesses momentos pequenos, quase invisíveis, que o coração se mostra inteiro.
As palavras
podem mentir com uma facilidade assustadora. O coração, quase nunca. Ele escapa
no gesto automático, na decisão impulsiva, no dinheiro que se oferece sem
pensar (ou se nega por cálculo), no toque que se dá por instinto, no abraço que
se recusa por orgulho, no perdão que se oferece de imediato - ou que se adia
por décadas.
A mente fala. O
coração age.
Por isso, quando
alguém diz “eu te amo”, mas nunca aparece, não acredite no amor. Quando alguém
diz “eu mudei”, mas repete exatamente os mesmos padrões, não acredite na
mudança.
Quando alguém jura “eu aprendi a lição”, mas
continua culpando o mundo inteiro, não acredite no aprendizado. E quando alguém
diz “isso me machuca”, mas continua voltando para quem machuca, aí sim:
acredite na dor - e talvez na dependência, na carência, no medo de ficar só.
As palavras explicam, mas as ações revelam o
que a pessoa ainda não consegue transformar. No fim das contas, só as ações contam. São elas que sustentam
ou desmentem o discurso. São elas que mostram quem a pessoa se tornou, apesar
do que gostaria de ser.
Porque é fácil
falar de bondade. Difícil é acordar às quatro da manhã para levar um amigo ao
hospital, mesmo cansado, mesmo sem ser sua obrigação.
É fácil falar de coragem. Difícil é pedir desculpas quando se está errado,
engolir o orgulho, enfrentar o próprio ego.
É fácil falar de amor. Difícil é ficar quando
tudo dentro de você pede para fugir, quando o medo grita mais alto que o afeto,
quando amar exige trabalho, disciplina e renúncia.
É fácil falar de respeito. Difícil é praticá-lo quando a raiva está fervendo. Então, sim: escute as palavras para compreender a mente. Mas observe as ações para conhecer o coração. Elas podem ser silenciosas, discretas, imperfeitas - mas são verdadeiras. E, acima de tudo, elas nunca mentem.

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