Mark Twain e John T. Lewis
Mark Twain e John T. Lewis: uma amizade que ultrapassou as barreiras do preconceito
Em 1903, na propriedade rural de Quarry Farm,
em Elmira, no estado de Nova York, uma fotografia registrou lado a lado dois
homens de origens muito diferentes: o escritor Mark Twain, um dos nomes mais
conhecidos da literatura americana, e John T. Lewis, um homem negro cuja
coragem e dignidade conquistaram sua amizade e admiração.
A imagem representa muito mais do que um
simples registro de época. Ela simboliza uma amizade que atravessou as
barreiras raciais de uma sociedade profundamente marcada pelo preconceito.
Nascido livre em Maryland, em 1835, John T.
Lewis estabeleceu-se posteriormente em Elmira, onde trabalhava como agricultor
e mantinha uma pequena propriedade próxima à Quarry Farm, residência da família
Langdon-Crane, parentes de Olivia Langdon, esposa de Mark Twain.
Foi em agosto de 1877 que aconteceu o
episódio que mudaria sua relação com aquela família. Naquele dia, Ida Langdon,
acompanhada da filha pequena, Julia, e de uma enfermeira chamada Nora, descia
uma estrada íngreme em uma carruagem puxada por um cavalo que, inesperadamente,
perdeu o controle.
O animal disparou estrada abaixo,
transformando o passeio em uma situação potencialmente fatal. Mark Twain e
Theodore Crane tentaram correr atrás da carruagem, mas não tinham condições de
alcançá-la.
Foi então que John T. Lewis apareceu. Percebendo
o perigo, ele posicionou sua própria carroça para bloquear a passagem e,
demonstrando extraordinária coragem e presença de espírito, saltou em direção
ao animal descontrolado, agarrou suas rédeas e conseguiu fazê-lo parar.
Sua atitude provavelmente salvou três vidas.
A partir daquele momento, Lewis passou a ser
considerado um herói pela família Langdon. Recebeu recompensas e presentes em
reconhecimento ao seu ato de bravura, incluindo um relógio de ouro oferecido em
homenagem ao resgate.
Mark Twain também demonstrou profunda
gratidão e admiração por aquele homem. O episódio deu início a uma amizade que
se prolongaria por muitos anos.
Lewis passou a frequentar Quarry Farm e
tornou-se uma presença habitual nas conversas com o escritor. Os dois
compartilhavam ideias, discutiam assuntos religiosos e mantinham uma relação de
respeito que ultrapassava as convenções raciais daquele período.
Existe também uma interessante ligação entre
John T. Lewis e uma das maiores obras da literatura americana: As Aventuras de Huckleberry Finn.
Pesquisadores consideram Lewis uma das
possíveis inspirações para Jim, o personagem negro que acompanha Huck em sua
jornada pelo rio Mississippi. Jim é uma figura fundamental no romance, cuja humanidade,
lealdade e sensibilidade confrontam os preconceitos raciais da sociedade
escravocrata retratada na narrativa.
Embora não seja possível afirmar que Lewis
tenha sido a única inspiração para o personagem, sua convivência com Twain
certamente oferece uma perspectiva interessante sobre a construção literária de
Jim.
Em 1903, os dois foram fotografados juntos na
própria Quarry Farm. A imagem tornou-se um registro histórico de uma amizade
incomum para uma época em que a segregação racial e o preconceito ainda
determinavam grande parte das relações sociais nos Estados Unidos.
Mark Twain não escondia sua admiração pelo
amigo. Ao falar de Lewis, deixou uma declaração que atravessou o tempo:
“Não conheci homem mais honesto nem mais digno de respeito.”
A história de John T. Lewis nos lembra de
algo que frequentemente esquecemos: a dignidade humana não depende da cor da
pele, da posição social, da riqueza ou da origem de alguém.
Às vezes, são justamente aqueles que a
sociedade insiste em colocar à margem que demonstram a maior grandeza de
caráter.
E talvez seja essa a verdadeira importância
daquela fotografia de 1903: dois homens sentados lado a lado, mostrando que o
respeito e a amizade podem ser maiores do que os preconceitos de uma época.

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