O Monopólio de Deus
Há livros que não se deixam ler apenas com os
olhos - exigem o risco do pensamento. Os Evangelhos, para Friedrich Nietzsche, pertencem a essa categoria
inquieta: não como simples narrativas de fé, mas como textos atravessados por
uma força mais sutil - a sedução.
Não a sedução do
corpo, mas a da moral. Porque a moral, quando bem vestida, não impõe: conduz.
Não grita: sussurra. E, nesse sussurro, molda consciências, orienta caminhos e,
sobretudo, delimita fronteiras invisíveis. Quem está dentro é salvo; quem está
fora, perdido.
Nietzsche
enxerga aí algo mais profundo - e mais incômodo. Uma construção paciente, quase
silenciosa, onde valores universais foram pouco a pouco apropriados: “Deus”,
“verdade”, “luz”, “amor”, “sabedoria”.
Palavras vastas, abertas, tornadas
propriedade de poucos. Como se nomeá-las fosse também as possuir. E assim,
discretamente, ergueu-se uma divisão: de um lado, os justos - aqueles que se
reconhecem como medida do bem; de outro, o mundo - vasto, múltiplo, imperfeito.
Não mais um encontro entre diferenças, mas um
julgamento constante, onde o outro só existe para ser corrigido, salvo ou
negado. O que se apresenta como humildade, talvez seja, no fundo, uma das
formas mais refinadas de poder.
Não se trata
aqui de negar a fé, mas de interrogá-la. De compreender que toda moral carrega
uma história - e, por vezes, uma intenção. Nietzsche não oferece respostas
confortáveis; ele abre fendas.
E nelas, o leitor se vê obrigado a encarar
uma pergunta silenciosa: até que ponto aquilo que chamamos de verdade é, de
fato, libertação - e não apenas uma forma elegante de condução?

Comentários
Postar um comentário