O Que o Tempo Não Leva


 

Dizem que nada dura para sempre. Que o tempo tudo leva, tudo desgasta, tudo transforma em lembrança. Dizem, como se fosse uma lei incontestável. Mas o que sinto por você insiste em desobedecer a essa regra tão repetida, tão aceita, tão cômoda.

Os meses viraram anos quase sem que eu percebesse. Caminhos que antes corriam lado a lado, sincronizados, hoje seguem em direções diferentes. Vieram novas cidades, novos horários, outras paisagens vistas da janela.

Novas pessoas cruzaram nossos dias, algumas ficaram, outras passaram como passam quase todas as coisas: depressa demais. Houve silêncios longos, daqueles que falam mais do que qualquer palavra.

Mensagens que demoraram a chegar, quando chegavam. Datas importantes atravessadas sem um abraço, sem um “estou aqui”. A vida aconteceu com força, com pressa, às vezes com crueldade, exigindo escolhas, impondo distâncias, ensinando a sobreviver.

E mesmo assim, meu coração se recusa a aprender a lição do esquecimento. Esse amor já não é barulhento como no começo, nem desesperado como nas despedidas.

Não grita, não implora, não sangra à mostra. Hoje ele é quieto, profundo, quase teimoso, como quem permanece mesmo quando tudo indica que deveria ir embora.

Ele mora em lugares discretos: na música que ainda me arranca o seu sorriso do passado, na rua que atravessávamos de mãos dadas sem perceber o tempo, dizem até que na forma como ainda reconheço você em pequenos gestos de estranhos.

Mora também nas fotos antigas que não consigo apagar, não por nostalgia, mas por respeito ao que fomos. Pode não ser eterno no mundo lá fora, esse mundo que corre, que separa, que substitui, que esquece com facilidade.

Mas aqui dentro… aqui dentro ele simplesmente não sabe partir. Está gravado a ferro e fogo, como tatuagem que a pele escolheu carregar, mesmo sabendo que o tempo também marca.

É mais forte do que a saudade, mais forte do que a razão, mais forte do que eu mesma. E talvez seja exatamente por isso que continuo acreditando: alguns amores não acabam.

Eles apenas aprendem a existir de outro jeito. Mudam de forma, de lugar, de silêncio, mas continuam existindo. Com a mesma intensidade contida. Com a mesma verdade intacta.

Se um dia o destino resolver nos cruzar outra vez, que ele me encontre ainda carregando esse mesmo sentimento, mais maduro, talvez mais calmo, mas não menor. Porque, por mais que o tempo tente, ele nunca conseguiu - e eu duvido muito que consiga - apagar você de mim.

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