A Despedida da Geração de Ferro


 

A chamada Geração de Ferro está se despedindo em silêncio, quase sem alarde, como quem cumpriu uma longa missão e não espera aplausos nem medalhas. Ela parte devagar, abrindo caminho para a chamada Geração Cristal, mais frágil na aparência, mais sensível, moldada por outros tempos e outras pressões.

Mas o legado que a Geração de Ferro deixa está gravado em pedra, ou melhor, em ferro: não se apaga. São os homens e mulheres que nasceram em meio à guerra, à seca, à crise ou à mais absoluta penúria do século XX, muitos ainda carregando as cicatrizes da infância durante os anos 1930, 40 e 50 no Brasil.

Começaram a trabalhar muito cedo, muitas vezes antes dos 12 anos, não para enriquecer, mas para que a família não desmoronasse. Sem diploma, sem curso superior, sem internet, sem direitos trabalhistas consolidados, educaram filhos com uma mistura rara de firmeza e carinho, de bronca forte e abraço apertado.

Mesmo quando a geladeira ficava vazia por dias, quando o salário mal dava para o mês, quando o fogão a lenha era o único aquecimento, eles jamais permitiram que faltasse o essencial dentro de casa: o pão, mesmo que fosse só um pedaço, o teto, ainda que de zinco vazando, o respeito, a palavra dada, a dignidade.

Foram eles que consertavam tudo com arame e jeitinho brasileiro, que andavam quilômetros para economizar passagem, que criavam galinha no quintal para ter ovo no café da manhã, que contavam história para os filhos dormirem sem precisar de celular.

Eram duros por fora - e precisavam ser -, mas carregavam dentro de si uma ternura que só quem viveu perto deles consegue medir. Hoje, ao vê-los partir - muitos já nonagenários, alguns centenários -, sentimos o peso de uma transição.

A Geração Cristal, protegida por leis, tecnologia, psicologia e redes de apoio, tem outros desafios: a fragilidade emocional, a pressão das redes sociais, a dificuldade de lidar com frustrações. Talvez por isso mesmo o contraste seja tão grande. Talvez por isso a gente sinta, ao mesmo tempo, saudade e gratidão tão profundas.

Que possamos honrar esse legado não apenas com palavras bonitas, mas guardando o que de melhor eles nos ensinaram: resiliência sem amargura, amor sem exibicionismo, e a certeza de que, no final das contas, o que realmente importa não cabe em currículo nem em stories: cabe no peito, na memória e na forma como tratamos quem vem depois.

Obrigado, Geração de Ferro. Vocês foram - e sempre serão - o alicerce silencioso de muita gente que hoje pode sonhar mais alto.

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