A Mortalidade
No relato do Gênesis, Deus expulsa Adão e Eva do
Jardim do Éden após a transgressão original, justificando o ato com uma
advertência decisiva: “para que
não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva para sempre”
(Gn 3:22).
A partir desse gesto inaugural, a
imortalidade, simbolizada pelo acesso contínuo à árvore da vida, é
deliberadamente negada à humanidade. À primeira vista, essa exclusão parece um
castigo severo.
Contudo, sob uma perspectiva biológica e
evolutiva, o episódio pode ser reinterpretado de forma paradoxal: longe de
representar uma punição arbitrária, a interdição da imortalidade surge como uma
condição necessária à própria dinâmica da vida.
O que o mito apresenta como perda, a natureza
revela como princípio estruturante. A morte não é uma anomalia nem uma falha do
sistema vivo; ela é uma de suas propriedades mais fundamentais. Praticamente
todos os organismos da Terra - de bactérias a plantas, de insetos a aves, de
répteis a mamíferos - nascem, crescem, reproduzem-se e morrem.
Mesmo aqueles raros seres que exibem formas
de “imortalidade biológica” parcial, como a hidra ou a medusa Turritopsis dohrnii, capaz de
reverter seu ciclo vital, permanecem vulneráveis a predadores, doenças,
escassez de recursos e catástrofes ambientais. Não existe, na prática, vida
orgânica absolutamente imortal.
A senescência, seja ela programada
geneticamente ou acumulada ao longo do tempo, constitui a regra dominante da
vida complexa. Mas por que a morte é tão essencial?
Em primeiro lugar, ela atua como mecanismo de
renovação
genética. Sem a substituição das gerações, mutações deletérias,
que são numericamente muito mais frequentes do que as benéficas,
acumular-se-iam indefinidamente nas populações.
A morte dos indivíduos menos adaptados abre
espaço para novas combinações genéticas, resultantes da recombinação sexual e
de mutações ocasionais favoráveis, permitindo que a seleção natural opere com
eficiência. Onde não há fim, não há correção.
Além disso, a mortalidade é o verdadeiro motor da evolução
adaptativa. A seleção natural depende da existência de variação
hereditária e de diferenças reais na sobrevivência e na reprodução.
Em um mundo de organismos imortais,
especialmente após a maturidade reprodutiva, a pressão seletiva enfraqueceria
drasticamente. Recursos limitados - alimento, território, parceiros - seriam
monopolizados pelos mais antigos, bloqueando a emergência de novas variantes
genéticas.
Espécies imortais tenderiam à estagnação
evolutiva e, ironicamente, tornar-se-iam extremamente frágeis diante de
mudanças ambientais abruptas. Há ainda o papel decisivo da morte no equilíbrio ecológico.
A decomposição dos organismos mortos é o que
devolve ao solo, à água e à atmosfera elementos essenciais como carbono,
nitrogênio e fósforo. Sem esse fluxo contínuo de matéria, os nutrientes
ficariam aprisionados em biomassa acumulada, levando ao empobrecimento dos
ecossistemas.
Florestas, oceanos, savanas e recifes de
corais - toda a exuberância da vida complexa - dependem desse ciclo
ininterrupto de criação e dissolução. Por fim, a mortalidade funciona como um freio natural à
superpopulação.
Se seres humanos - ou qualquer espécie -
fossem imortais e mantivessem sua capacidade reprodutiva, a expansão
populacional atingiria rapidamente níveis insustentáveis.
O esgotamento dos recursos planetários seria
inevitável, seguido por colapsos ecológicos em cascata, fome generalizada e
extinções em massa. A ausência da morte não conduziria ao paraíso, mas a um
cenário de ruína absoluta.
Dessa forma, o mito do Éden pode ser relido à
luz da ciência como uma poderosa metáfora. A “árvore da vida”, que garantiria a
imortalidade, representa exatamente aquilo que a biologia evolutiva reconhece
como inviável a longo prazo: uma existência sem renovação, sem adaptação e sem
equilíbrio.
A expulsão do paraíso, nesse sentido, não
inaugura apenas o sofrimento humano, mas também a possibilidade de um mundo
vivo, diverso e em constante transformação.
Em última análise, se o gesto divino visava proteger a criação de um destino ainda mais trágico, barrar o acesso à imortalidade biológica talvez tenha sido - do ponto de vista da vida enquanto processo - uma das decisões mais sábias possíveis. A morte não é a negação da vida; é o que permite que ela continue a se reinventar, geração após geração, há bilhões de anos.

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