A Baleia que Cantava para o Vazio


 

Durante décadas, os oceanos do Pacífico Norte ecoaram um som que desafiava todos os padrões conhecidos. Não era o ronco de motores de navios, nem o ruído de equipamentos humanos.

Tratava-se de um canto profundo, ritmado e solitário, emitido sempre na frequência incomum de cerca de 52 hertz, muito mais aguda do que os chamados graves - entre 10 e 39 Hz - das baleias-azuis e das baleias-comuns, as espécies cujas rotas migratórias mais se assemelham às dela.

Enquanto as baleias costumam cantar em “coros” que viajam centenas de quilômetros e recebem respostas de outros indivíduos da mesma espécie, esse som ecoava sem resposta.

Ele surgia todos os anos, geralmente entre agosto e dezembro, seguia rotas que cruzavam vastas áreas do Pacífico - das ilhas Aleutas e Kodiak, na costa do Alasca, até a Califórnia -, percorria até 70 km por dia e, no início do ano (janeiro ou fevereiro), desaparecia do alcance dos hidrofones.

Nenhum outro canto exatamente igual foi detectado em outro lugar ao mesmo tempo, reforçando a ideia de que se tratava de um único animal. Cientistas do Woods Hole Oceanographic Institution, que começaram a rastreá-lo em 1989 com dados inicialmente captados pelo sistema de escuta submarina da Marinha dos EUA (SOSUS), concluíram que era uma única baleia.

Ela vocalizava fora da “linguagem” compartilhada pelas demais. Sua voz existia, preenchia o oceano, mas permanecia incompreendida, sem eco de reconhecimento ou convite.

Não estava fora do oceano - estava fora do diálogo. Ninguém sabe ao certo por quê. As hipóteses mais aceitas incluem: uma anomalia anatômica no aparelho vocal (talvez uma deformidade congênita), um cruzamento raro entre espécies (provavelmente baleia-azul e baleia-comum, já que híbridos dessas espécies existem e podem apresentar características vocais intermediárias), ou até uma condição genética ainda não identificada.

Com o tempo, o canto baixou ligeiramente (para cerca de 50 Hz), o que é compatível com o amadurecimento de um macho. Curiosamente, desde cerca de 2010, surgiram registros esporádicos de outros cantos em 52 Hz em locais diferentes, sugerindo que talvez não seja tão única quanto se pensava, mas a principal fonte, a “original”, continuou sendo detectada sozinha por anos.

O animal nunca foi visto. Nenhum mergulhador, drone ou expedição (incluindo a documentada no filme The Loneliest Whale: The Search for 52, de 2021, com produção associada a Leonardo DiCaprio) conseguiu flagrá-lo visualmente.

Tudo o que sabemos vem de hidrofones espalhados pelo fundo do mar. Com o passar dos anos, os registros do canto principal foram rareando. A última detecção consistente e amplamente documentada ocorreu por volta de meados dos anos 2000, embora alguns relatos indiquem capturas esporádicas em anos posteriores.

É provável que a baleia - que poderia ter décadas de vida quando foi descoberta - tenha morrido em algum momento nas últimas duas décadas, levando consigo seu canto único para o silêncio definitivo do oceano. Sem nunca ter recebido uma resposta igual à sua voz.

A história da baleia dos 52 hertz transcende a biologia marinha. Ela se tornou um símbolo poderoso da solidão, da incomunicabilidade e da busca por conexão em um mundo vasto e indiferente - inspirando documentários, músicas (como a faixa “Whalien 52” do BTS), livros, filmes japoneses e até esculturas.

Seu legado permanece: mesmo sem nome, sem rosto e talvez sem companhia, aquela voz solitária foi ouvida por humanos durante décadas. E, de certa forma, respondeu ao nosso próprio silêncio.

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