O Justiceiro Chico Pé de Pato


 

Francisco Vital da Silva, conhecido como Chico Pé de Pato, nasceu em 1942 em Campo Alegre de Lourdes, no sertão da Bahia. Como muitos nordestinos da época, migrou para São Paulo em busca de uma vida melhor, estabelecendo-se no Itaim Paulista, na zona leste da cidade, um bairro marcado pela violência e pela pobreza nos anos 1980.

Inicialmente, trabalhou como pedreiro e, com esforço, abriu um pequeno bar. No entanto, o estabelecimento tornou-se alvo constante de assaltos, extorsões e vandalismos por parte de criminosos locais.

Cansado da impunidade e da falta de proteção policial, Chico começou a reagir aos ataques, sempre armado com uma faca, expulsando à força os bandidos de seu comércio e ganhando respeito (e medo) na vizinhança.

O ponto de virada em sua vida ocorreu em 1984, quando, enquanto registrava mais um boletim de ocorrência na delegacia, cinco homens armados invadiram sua casa. Eles roubaram pertences e estupraram sua esposa e sua filha de 16 anos.

Esse crime brutal devastou a família e transformou Francisco em um justiceiro implacável. Ele voltou temporariamente à Bahia para se recuperar, mas retornou a São Paulo dois meses depois, armado com revólveres, acompanhado de seu filho Flávio (então com 19 anos).

Juntos, iniciaram uma caçada aos criminosos, executando aqueles que consideravam responsáveis pelas atrocidades contra sua família e outros delitos na região.

Sua primeira ação noticiada foi em agosto de 1985, quando matou dois irmãos supostamente envolvidos nos crimes contra sua família, com a manchete do jornal Notícias Populares:

“2 irmãos liquidados pelo Justiceiro da Zona Leste”.

A partir daí, Chico Pé de Pato - apelido derivado de sua maneira característica de andar, com os pés abertos (“dez pras duas”) - tornou-se uma figura lendária na mídia sensacionalista.

O jornal dedicou séries de reportagens a ele, e ele mantinha amizade com o radialista Afanásio Jazadji, do programa Patrulha da Cidade, fornecendo exclusivas sobre suas ações.

Muitos o viam como herói, preenchendo o vácuo deixado pela ineficiência policial; rumores diziam que até policiais passavam informações sobre bandidos. Estima-se que ele tenha sido responsável por dezenas de mortes (algumas fontes falam em mais de 50).

A trajetória de Chico mudou drasticamente em agosto de 1985, quando, durante uma briga em um bar, matou por engano um policial militar à paisana (Moacir Ferreira de Mello), com tiros e facadas.

Tornou-se alvo da polícia, fugiu em seu Opala e, após negociação mediada por Jazadji, se entregou. Na prisão, centenas de moradores do Itaim Paulista protestaram por sua liberdade, e no julgamento, cerca de 2 mil pessoas compareceram ao fórum.

Apesar das acusações de múltiplos homicídios, foi condenado a apenas seis anos de prisão, influenciado pela pressão popular. Transferido para a Penitenciária de Franco da Rocha, Chico Pé de Pato foi assassinado em 27 de janeiro de 1987, durante uma rebelião (ou possivelmente em uma execução planejada), com dezenas de facadas (relatos variam de 50 a 91).

Aos 45 anos, sua morte encerrou uma história controversa: para alguns, um vingador que fazia justiça onde o Estado falhava; para outros, um assassino vigilante.

Sua saga inspirou documentários, como Pé de Pato: As (in)Justiças de um Cidadão Comum (2020), e permanece como símbolo da violência urbana e da impunidade nos anos 1980 em São Paulo.

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