Ela
E eu queria guardá-la na memória exatamente
assim: em seu instante perfeito, radiante, antes que o peso do tempo e as
regras do jogo nos desgastassem; antes que a dança entre nós se transformasse
em um eco distante.
Queria congelar
aquele momento em que seus olhos brilhavam com a promessa de algo eterno,
quando o mundo parecia suspenso - como se o universo, por um raro capricho,
tivesse nos concedido trégua - e éramos apenas nós dois, intocados pelas
inevitáveis rachaduras da vida.
A memória tem
esse poder agridoce: eterniza o que foi, mas também sussurra o que se perdeu.
Eu queria lembrar dela na leveza de um sorriso espontâneo, no calor de uma
tarde de verão em que as horas pareciam não ter fim; antes que a rotina, as
expectativas e os silêncios não ditos erguessem paredes invisíveis entre nós.
Era um tempo em
que o amor - ou o que acreditávamos ser amor - ainda não conhecia o cansaço, e
o futuro se abria como uma tela em branco, cheia de possibilidades. Hoje, penso
nesses momentos como relíquias de um passado que não retorna, mas que insiste
em moldar quem nos tornamos.
A história é
feita desses instantes fugazes que capturam a beleza antes de sua queda: o
olhar de Marilyn Monroe em uma fotografia de 1954, luminoso e vulnerável, antes
que a fama a consumisse; o fervor de Woodstock em 1969, quando o mundo
acreditou, por um breve e quase ingênuo momento, que o amor e a música poderiam
mudar tudo; ou mesmo as conexões humanas intensas forjadas durante a pandemia
de 2020, quando o isolamento nos fez valorizar cada gesto, cada conversa, cada
promessa sussurrada por uma tela.
São fragmentos
de perfeição - frágeis, breves, mas poderosos - que carregamos como uma espécie
de bússola emocional.
E eu queria
lembrar dela assim: não pelo fim, não pelas palavras cortantes, nem pela
distância que cresceu entre nós como uma sombra inevitável, mas por aquele
único instante em que éramos inteiros, em que o universo parecia conspirar a
nosso favor.
Porque, no fundo, é isso que nos mantém vivos: a capacidade de preservar o que foi perfeito, mesmo quando o jogo da vida segue seu curso implacável. Ele nos transforma, nos afasta, nos remodela - mas nunca apaga o brilho daqueles momentos em que fomos, ainda que por um instante, tudo aquilo que poderíamos ter sido.

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