Apenas um corpo na carga


 

“Hoje você pode estar na primeira classe de um avião, e amanhã pode ser apenas um corpo na carga.”

Essa frase, fortemente realista e quase brutal, é um lembrete da fragilidade da existência e da velocidade com que as circunstâncias mudam. A vida troca os cenários sem perguntar se estamos prontos, sem avisar que aquele último embarque poderia ser mais literal do que gostaríamos.

Num dia, há aplausos, privilégios, conforto e prioridade no embarque. No outro, pode haver silêncio, lágrimas e um trajeto final feito às pressas, embalado num caixão que passa pelas mesmas portas por onde antes se atravessava sorrindo, com passaporte em mãos.

A humildade deveria ser o item número um na bagagem de qualquer viajante do mundo, porque não existe passagem garantida para o amanhã.

Material, status, conta bancária, títulos e poder - tudo isso pode evaporar no instante em que a vida muda de rota. Um exame inesperado, um acidente, um descuido, um telefonema às três da manhã e, aquilo que parecia sólido se dissolve como neblina.

A humildade funciona como um freio discreto, uma âncora silenciosa que nos impede de acreditar que estamos acima de alguém. Ela nos ensina a valorizar os vínculos, os gestos cotidianos, os encontros que parecem comuns, mas que são únicos. Ensina a não pisar em ninguém só porque o nosso assento momentaneamente é mais confortável.

Há quem viaje na janela, com o nariz levantado, exibindo o bilhete dourado como se fosse um troféu vitalício. Olham para o mundo lá embaixo com ironia e desdém, esquecendo que o avião não distingue classes quando pousa de emergência.

Nos últimos minutos de turbulência severa, não há distinção entre primeira classe e econômica: todos seguram os cintos com o mesmo medo, todos imploram pelo mesmo milagre. E a vida é assim: iguala.

Quando um avião cai, na lista final não existe poltrona numerada - existe apenas nome e destino interrompido.

Já houve quem partiu assim: saiu de casa com malas de couro finíssimo, carregou perfumes caros, viveu cercado por aplausos. Porém, regressou à terra sem discurso, sem flash, sem plateia - apenas um corpo na carga, aguardado por lágrimas, burocracias e silêncios ateados de saudade.

Tem pouca humildade circulando por aí. Sobram arrogâncias ostentadas. Há os que confundem altitude com grandeza, achando que estar acima do solo é o mesmo que estar acima de alguém.

Mas grandes mesmo são os que pisam firme sem medir o tamanho da sombra alheia; os que sentam em qualquer assento com a mesma dignidade; os que não precisam erguer a voz para serem ouvidos. A vida é um voo breve.

Uns gastam o tempo olhando de cima, tentando provar importância. Outros vivem observando do lado de dentro - com gratidão, com respeito, com consciência de que todos somos passageiros de passagem curta.

Carregar humildade na bagagem é viajar leve, sem excesso de vaidades. É ter espaço para colocar aquilo que realmente importa: lembranças boas, mão estendida, palavra gentil, abraço sincero. Porque, quando o voo final chegar - e ele chega para todos - ninguém embarca com mala de couro, mas apenas com o que plantou no caminho.

E se um dia formos apenas um corpo na carga, que pelo menos sejamos lembrados como alguém que não se achou dono do céu, mesmo quando viajou com vista para ele.

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