A Terra não é o inferno de um outro planeta?
“Como sabes que a Terra não é o inferno de um
outro planeta?” - provocou Aldous Huxley.
A frase ecoa
quase como uma acusação, uma sombra lançada sobre nossa vaidade existencial.
Olhamos ao redor e vemos um mundo repleto de contradições: povos inteiros
devastados por guerras, líderes que manipulam seu povo com discursos vazios de
moralidade, desigualdades que crescem enquanto poucos acumulam riqueza e poder.
Às vezes parece mesmo que fomos depositados
aqui à força, como exilados cósmicos cumprindo uma pena de duração indefinida. A
provocação de Huxley ressoa porque há algo de profundamente incômodo nela.
Vivemos cercados por tragédias que se repetem
desde os primeiros registros da humanidade: conquistadores que devastam terras,
ideologias que matam em nome de promessas, ditaduras que sufocam a esperança
antes que ela floresça.
Em momentos assim, é tentador imaginar que a
Terra seria a penitenciária de um universo maior - um lugar onde seres
imperfeitos são enviados para aprender algo que ainda não sabem.
Se fosse esse o
caso, faria sentido que aqui existam dores que parecem eternas, repetições que
atravessam séculos e erros que não conseguimos deixar para trás. Talvez a
história humana seja um ciclo corrigido à força, como se a vida nos empurrasse
a revisitar a própria falha - violência, ambição desmedida, orgulho - até que
aprendamos algo transformador.
Mas se a Terra
fosse apenas um inferno alheio, como explicar os lampejos de grandeza que
florescem mesmo no meio da escuridão? Se somos condenados, somos condenados
capazes de compaixão.
Há artistas que
criam beleza inesquecível a partir da dor. Há pessoas que enfrentam tiranias e
sobrevivem. Há mães que educam filhos em cenários de miséria e ainda assim os
ensinam sobre bondade.
Há anônimos que morrem salvando
desconhecidos. Há quem ame, mesmo tendo sido ferido. Há quem perdoe, mesmo sem
que o arrependimento venha. Talvez não sejamos exilados - talvez sejamos
aprendizes.
Se a Terra é
dura, é porque aqui se afia o espírito. Se a existência é um labirinto de
contradições, talvez seja porque sem atravessá-lo não descobriríamos o caminho
do sentido.
Pode ser que a
Terra não seja o inferno de outro planeta, mas o campo de provas onde o melhor
e o pior da humanidade coexistem. Onde a dor não é sentença final, mas ponto de
partida.
Huxley nos provoca,
mas não entrega respostas. Ele nos obriga a olhar para a ausência de sentido e
a decidir o que fazer com ela. Afinal, se há inferno, ele também é feito
daquilo que deixamos de construir. Se há paraíso, talvez seja apenas o nome que
damos àquilo que nasce quando escolhemos ser melhores do que fomos.
No fim, a Terra pode não ser um inferno alheio - pode ser o lugar onde cada um de nós descobre, na maratona da existência, que o verdadeiro exílio não está no planeta, mas na incapacidade humana de reconhecer que ainda estamos em processo. E que não estamos condenados - estamos sendo moldados.

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