A punição dos líderes da Rebelião de Münster
A punição imposta aos líderes
da Rebelião de Münster - marcada pela tortura pública e pela posterior
exposição de seus corpos em jaulas suspensas na Igreja de São Lamberto (St.
Lambertikirche) - não foi uma iniciativa direta da Igreja Católica enquanto
instituição religiosa universal, mas sim uma ação conduzida pelas autoridades
seculares da época, sob a liderança de Franz von Waldeck.
Este, além de bispo de
Münster, exercia também o poder temporal como príncipe-bispo, acumulando
funções religiosas, políticas e militares, característica comum no contexto do
Sacro Império Romano-Germânico.
Franz von Waldeck governava
Münster como um senhor feudal, com autoridade para levantar exércitos, impor
leis e administrar justiça. Assim, embora ocupasse um cargo eclesiástico, suas
decisões no contexto da rebelião foram tomadas sobretudo no exercício de seu
poder secular.
Essa fusão entre Igreja e
Estado era estrutural naquele período histórico e dificulta qualquer separação
clara entre o que era “religioso” e o que era “político”. A Rebelião de Münster
(1534–1535) teve início quando anabatistas radicais tomaram o controle da
cidade e proclamaram um regime teocrático conhecido como o “Reino de Sião”.
Sob a liderança de Jan van Leiden,
o movimento instaurou práticas extremas, como a poligamia obrigatória, a
abolição da propriedade privada e uma rígida interpretação apocalíptica da fé
cristã.
Essas ações desafiaram não
apenas a Igreja Católica, mas também as autoridades protestantes emergentes,
que viam nos anabatistas uma ameaça à ordem social, política e religiosa.
Diante disso, Franz von
Waldeck organizou um cerco militar à cidade, contando com o apoio de nobres
locais e até mesmo de príncipes protestantes, unidos pelo interesse comum de
eliminar o experimento anabatista. Após meses de fome, violência e colapso
interno, Münster foi reconquistada em junho de 1535.
Com a retomada da cidade, os
principais líderes - Jan van Leiden, Bernhard Knipperdolling e Bernhard
Krechting - foram capturados, submetidos a torturas públicas brutais e
executados. Seus corpos, colocados em jaulas de ferro, foram pendurados na
torre da Igreja de São Lamberto, onde permaneceram por décadas, como um aviso
permanente à população.
A escolha da catedral como
local da exibição não foi casual. Embora não represente uma ordem direta do
papado ou da cúria romana, o uso de um espaço sagrado reforçava simbolicamente
a ideia de que a rebelião era uma afronta tanto à autoridade temporal quanto à
ordem divina que o príncipe-bispo alegava representar.
O castigo tinha, portanto, um
claro objetivo político: restaurar a autoridade, demonstrar força e dissuadir
qualquer tentativa futura de contestação. Na prática, a Igreja Católica
enquanto instituição não comandou formalmente as execuções, mas tampouco se
opôs a elas.
Os anabatistas eram
considerados hereges por católicos e protestantes, e sua eliminação foi
amplamente aceita como necessária para a manutenção da ordem. O silêncio
institucional e a legitimação simbólica da violência revelam a cumplicidade
estrutural entre poder religioso e repressão estatal naquele contexto
histórico.
O episódio de Münster
evidencia como, ao longo da história, a Igreja - especialmente quando
entrelaçada ao poder político - esteve associada a algumas das piores práticas
da experiência humana: intolerância religiosa, violência legitimada pela fé,
tortura e punições exemplares travestidas de defesa da ordem divina.
Mais do que um desvio isolado,
trata-se de um reflexo de um sistema em que o sagrado foi frequentemente
utilizado como instrumento de dominação e controle.
As jaulas ainda hoje
penduradas na torre de São Lamberto permanecem como um símbolo perturbador
desse passado, lembrando que, quando religião e poder absoluto se confundem, o
resultado costuma ser a negação da dignidade humana.


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