O acendedor de lampiões


 

Os acendedores de lampiões, também conhecidos como "faroleiros" ou "lampeiros" em algumas regiões, eram trabalhadores essenciais nas cidades do século XIX e início do século XX, responsáveis por acender, apagar e manter os lampiões a gás que iluminavam ruas, praças e avenidas antes da disseminação da eletricidade.

Esses profissionais desempenhavam um papel crucial na infraestrutura urbana, garantindo a segurança e a visibilidade noturna em um período em que a iluminação pública era um símbolo de modernidade e progresso.

A profissão surgiu no início do século XIX, com a introdução da iluminação a gás nas grandes cidades europeias, como Londres e Paris, e logo se espalhou por outras metrópoles ao redor do mundo, incluindo cidades da América Latina, como Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Os lampiões a gás, alimentados por gás de hulha ou outros combustíveis, eram uma inovação revolucionária para a época, substituindo as frágeis velas e lampiões a óleo que ofereciam iluminação limitada.

Cada acendedor carregava uma vara longa, muitas vezes com uma chama na ponta, para acender os lampiões ao entardecer e apagá-los ao amanhecer. Além disso, eles limpavam os vidros, reparavam os equipamentos e garantiam o fornecimento de gás, tarefas que exigiam habilidade e dedicação.

O trabalho dos acendedores de lampiões não era apenas técnico, mas também carregava um caráter quase poético. Eles eram figuras familiares nas ruas, muitas vezes vistos como guardiões da noite, caminhando em silêncio com suas varas e lanternas.

Em muitas cidades, o acendimento dos lampiões marcava o ritmo do dia, sinalizando o início da vida noturna. No entanto, as condições de trabalho eram desafiadoras: os acendedores enfrentavam longas jornadas, condições climáticas adversas e, em alguns casos, riscos associados ao manuseio do gás, que podia ser perigoso se mal administrado.

Com o avanço da eletricidade no final do século XIX e início do século XX, a profissão começou a desaparecer. A transição para a iluminação elétrica foi gradual, começando em áreas centrais das grandes cidades e se expandindo lentamente para bairros periféricos.

Em algumas regiões, como cidades menores ou países em desenvolvimento, os lampiões a gás permaneceram em uso até meados do século XX. No Brasil, por exemplo, cidades como São Paulo e Recife ainda contavam com acendedores de lampiões até as primeiras décadas do século XX, quando a eletrificação se consolidou.

Culturalmente, os acendedores de lampiões deixaram um legado duradouro. Eles aparecem em obras literárias, pinturas e até no folclore de várias regiões, simbolizando uma era de transição entre a tradição e a modernidade.

Um exemplo notável é a figura do "Sereno", um personagem do folclore brasileiro que, além de vigiar as ruas, muitas vezes também acendia os lampiões, combinando funções de guarda noturno e faroleiro.

Em Londres, os acendedores, conhecidos como "lamplighters", inspiraram personagens em contos de Charles Dickens, refletindo sua presença marcante na sociedade vitoriana. Hoje, os lampiões a gás são relíquias do passado, preservados em algumas cidades como atrações turísticas ou símbolos históricos.

Em locais como Covent Garden, em Londres, ou o bairro do Gasômetro, em Porto Alegre, réplicas ou lampiões originais ainda são mantidos, muitas vezes acesos manualmente em eventos especiais, como uma homenagem aos acendedores de outrora.

A profissão, embora extinta, permanece viva na memória coletiva como um testemunho da engenhosidade humana e da evolução urbana.

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