O Universo sem Roteiro



Confesso: acredito viver no melhor universo possível - não por perfeição, mas pela ausência de tirania cósmica. Não suportaria existir num cosmos regido por um deus temperamental, um autor invisível que escreve o destino com tinta de arbitrariedade.

A ideia de um Criador que dita regras indecifráveis e pune com eternidade por erros de segundos me parece mais próxima de um pesadelo metafísico do que de uma redenção.

Não suportaria saber que minha alma - esse entrelaçado de sinapses, memórias e afetos - seria julgada por critérios insondáveis, condenada a um paraíso ou inferno cuja lógica só o próprio juiz compreende.

Tampouco suportaria a ideia de renascer infinitamente, como um Sísifo amnésico, empurrando a pedra da existência sem jamais recordar o porquê. Que aprendizado há em repetir sem lembrar? Que evolução há em retornar ao ponto de partida, desprovido de passado e de consciência?

Se existe um deus onipotente e onisciente, a vida, paradoxalmente, perde sentido. Porque o sentido, então, não é nosso - é dele. Seríamos marionetes de um roteiro escrito antes do primeiro átomo vibrar.

Nossa dor, nossa busca, nossa ternura - tudo se tornaria mero adereço numa encenação divina, onde somos figurantes de um drama cósmico que nunca poderemos entender.

Prefiro o universo que temos: caótico, indiferente, mas livre. Um universo sem autor, onde o sentido não é dado, mas construído. Aqui, cada gesto de bondade, cada descoberta científica, cada poema rabiscado à meia-luz é um ato de rebeldia contra o absurdo. É o humano dizendo ao infinito: “eu existo - e isso basta.”

Em 1927, quando o padre Georges Lemaître propôs o Big Bang, a Igreja viu na teoria a confirmação da criação divina. Décadas depois, o Telescópio James Webb revelou galáxias formadas apenas 300 milhões de anos após o suposto “início” - tão antigas que desafiam até os modelos mais rígidos da cosmologia moderna.

E ainda assim, nenhum milagre. Nenhuma mão invisível. Apenas matéria, energia e tempo - a tríade silenciosa que sustenta tudo o que somos.

Em 1348, a Peste Negra ceifou um terço da Europa. Rezaram em desespero. As igrejas lotaram, os corpos também. Em 2020, o mundo ajoelhou novamente diante do invisível - um vírus agora, não mais um castigo divino.

Milhões morreram do mesmo jeito, mas entre uma pandemia e outra, inventamos a penicilina, a anestesia, a vacina, o sequenciador genético. Salvamos mais vidas em um século do que todas as preces de toda a história. O milagre não veio dos céus - veio das mãos humanas.

E ainda assim, persistem as perguntas que rasgam a alma: se Deus existe, por que o universo parece tão indiferente? Por que as crianças nascem com câncer se o plano é perfeito? Por que o amor, que dizem ser a imagem divina, tantas vezes se converte em abandono, em traição, em ausência?

Prefiro a resposta dura e libertadora: não há plano. Há apenas nós - frágeis, efêmeros, conscientes demais para aceitar o acaso, mas corajosos o bastante para transformá-lo em sentido.

Somos feitos de poeira estelar e solidão ancestral. Temos 13,8 bilhões de anos de explosões gravadas nas veias. O carbono em nossos ossos já foi coração de estrela; o hidrogênio em nossa água é tão antigo quanto o próprio tempo.

E talvez seja essa a nossa redenção: saber que, mesmo num universo indiferente, podemos escolher o amor, o conhecimento, a arte. Podemos dar significado ao caos.

Não para agradar um juiz eterno. Não para acumular méritos espirituais. Mas para que, quando o último neurônio se apagar, reste algo - uma música, uma ideia, um olhar, uma risada - que diga: por um instante, este universo foi menos frio por nossa causa.

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