O Homem das Cavernas.




Há cerca de 6.000 anos, em uma tarde dourada onde o sol parecia hesitar em se pôr, o Senhor, em sua infinita majestade, proclamou com uma voz que ecoava pelos céus e montanhas:

- Faça-se a luz! O homem das cavernas, um sujeito calejado, com barba desgrenhada e uma expressão de quem já viu de tudo, ergueu os olhos do chão poeirento.

Ele era produto de milênios de seleção natural, com ombros largos e um cérebro afiado pela sobrevivência. Olhou para os lados, franzindo a testa, e, não vendo nada além do habitual - árvores, rochas e o ocasional tigre-dentes-de-sabre à espreita -, resmungou:

- Ok, tá bom... Sem muita cerimônia, ele pegou dois gravetos secos, esfregou-os com a habilidade de quem já dominava a arte do fogo há gerações, e, em poucos instantes, uma fogueira crepitante iluminava a entrada da caverna.

As chamas dançavam, lançando sombras que pareciam contar histórias antigas nas paredes de pedra. O Senhor, suspenso em sua glória celestial, observou a fogueira com um leve aceno de aprovação.

- Isso é bom - disse, satisfeito, como quem avalia uma obra-prima recém-concluída. O homem das cavernas, no entanto, não estava impressionado. Ele jogou mais um galho na fogueira, limpou o suor da testa e, olhando para o céu com um misto de curiosidade e descrença, retrucou:

- Sério? Fazemos isso há uns 50.000 anos, sabia? Você tá meio atrasado na agenda, não acha?

O Senhor, pego de surpresa, franziu a testa divina. Aquele mortal estava questionando o próprio Criador?

Ele cruzou os braços etéreos e, com um tom que misturava perplexidade e autoridade, perguntou:

- Espera aí. De onde você veio? Como foi parar aqui sem um criador?

O homem das cavernas, agora sentado em uma pedra, mastigando uma fruta meio madura, deu de ombros e respondeu com um sorriso sarcástico:

- Eu ia te perguntar a mesma coisa! Quem te colocou aí em cima dando ordens?

Por um momento, o céu pareceu silenciar. Até os pássaros pararam de cantar, como se esperassem uma resposta épica. O Senhor, porém, apenas riu, um som profundo que fez as nuvens tremerem.

- Justo - disse Ele, ainda rindo. - Mas, sério, essa fogueira... boa técnica. Quem te ensinou? O homem das cavernas apontou para si mesmo com orgulho.

- Aprendemos sozinhos. Caçando, correndo de predadores, testando gravetos, pedras... Sabe como é, a vida ensina. E você, o que mais tem na manga além de “faça-se a luz”?

O Senhor, intrigado com a audácia do mortal, decidiu descer um pouco mais perto. Não em forma de fogo ou trovão, mas como uma brisa suave que agitava as folhas.

- Quer saber? - disse Ele. - Estou pensando em uns rios, montanhas, talvez umas estrelas a mais no céu. E quem sabe um bicho ou dois que não te devorem no café da manhã.

O homem das cavernas coçou a barba, pensativo.

- Isso parece legal. Mas, se for fazer estrelas, coloca umas que formem desenhos. Tipo um tigre ou uma árvore. Ajuda na hora de contar histórias para as crianças.

E assim, entre o crepitar da fogueira e o diálogo improvável, o Senhor e o homem das cavernas passaram a noite conversando. Não sobre criação ou evolução, mas sobre as coisas simples: o cheiro da lenha queimando, o som do vento nas árvores e a arte de sobreviver em um mundo que, de alguma forma, já parecia funcionar muito bem antes de qualquer decreto celestial.

No dia seguinte, quando o sol nasceu, o Senhor olhou para a Terra e pensou:

“Talvez eu não precise explicar tudo. Esses humanos... eles têm seus jeitos.” E o homem das cavernas, ao acordar, viu o céu mais estrelado do que nunca e murmurou:

- Nada mal, cara. Nada mal.

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