Não acredito no Deus da bíblia
Durante muito
tempo, disseram-me que eu deveria acreditar em Deus. Não em qualquer Deus, mas
naquele que já vinha pronto: com nome, regras, mandamentos, recompensas para os
obedientes e castigos para os que ousassem duvidar.
Mas há uma
pergunta que nunca consegui abandonar: que espécie de Deus precisa ser temido para ser obedecido?
Não consigo
acreditar em uma divindade que escolhe alguns e rejeita outros; que ama os que o
adoram e condena os que não acreditam nele; que pune, ameaça, castiga e, em
determinados relatos, ordena a violência em seu próprio nome.
Se esse é o
modelo de perfeição que me oferecem, prefiro continuar procurando. Não digo que
não acredito em nada. Talvez seja justamente o contrário. Acredito em algo
grande demais para caber em templos, escrituras ou na limitada imaginação
humana.
Chamo isso de vida. Às vezes, de Inteligência Cósmica. Não sei se essa inteligência
pensa como pensamos, nem se possui sentimentos semelhantes aos nossos.
Talvez seja muito mais simples – ou infinitamente mais complexa.
Mas há algo que
me impressiona: a natureza não parece fazer distinções morais antes de oferecer
aquilo que mantém a vida. O sol não pergunta em quem você acredita antes de
nascer.
A chuva não
escolhe a casa do santo e abandona a do pecador. O ar não passa apenas pelos
pulmões dos justos. A terra oferece seus frutos a quem reza e a quem não reza.
A vida nasce, cresce, transforma-se e desaparece sem consultar sacerdotes,
profetas ou livros sagrados.
E isso me parece
muito mais próximo daquilo que eu chamaria de amor. Talvez o problema esteja
justamente aí. Nós, seres humanos, temos uma necessidade quase desesperada de
criar explicações para aquilo que não compreendemos. E, quando criamos um Deus,
frequentemente colocamos nele aquilo que existe em nós: ciúme, ira, vingança,
preconceito, intolerância e desejo de poder.
Depois, olhamos
para nossa própria criação e dizemos: “Este é Deus.” É uma ironia quase
assustadora. Criamos Deus à nossa imagem e, depois, passamos séculos tentando
nos convencer de que fomos nós que fomos criados à imagem dele.
Talvez por isso
existam tantos deuses diferentes, tantas verdades absolutas e tantas religiões
convencidas de possuir a única resposta. Cada povo, cada época e cada cultura
encontrou maneiras diferentes de explicar o inexplicável.
Mas a vida
continua indiferente às nossas disputas. Enquanto discutimos quem possui a
verdade, uma criança nasce. Enquanto construímos muros entre crentes e
descrentes, uma árvore cresce.
Enquanto homens
matam em nome de Deus, o sol continua iluminando assassinos e santos com a
mesma luz. E talvez essa seja a maior provocação de todas: se existe uma
inteligência por trás de tudo, talvez ela seja muito menos parecida conosco do
que imaginamos.
Talvez não
precise de templos. Talvez não precise de louvores. Talvez não precise de medo.
Talvez não esteja preocupada com quem se ajoelha ou com quem permanece de pé.
Talvez
simplesmente seja. E, diante do infinito, talvez a maior demonstração de inteligência
não seja afirmar que conhecemos Deus, mas ter humildade suficiente para admitir
que não sabemos.
Eu não rejeito o
mistério. Rejeito apenas a pretensão humana de ter colocado o infinito dentro de um livro
e, depois, chamado isso de verdade absoluta.

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